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Campeão mundial de boxe, baiano Sertão vive de forma humilde

Diz-se que toda estrela do boxe precisa de um título expressivo para garantir um estilo de vida confortável, ou uma aposentadoria robusta. Mas a recíproca não é verdadeira. Último brasileiro campeão mundial, o baiano Valdemir Pereira, o ‘ ‘, vive, hoje, da mesma forma que antes da carreira: mora em uma casa humilde na sua cidade natal, Cruz das Almas, e trabalha numa loja de departamentos local.

Na casa de Sertão, o cinturão mundial é agora mais um adereço da sala de estar. Seu destaque, hoje, é ficar na prateleira acima da TV. Os outros são jornais antigos e pôsteres de lutas, além do famoso chapéu sertanejo, que o acompanhava na entrada dos ringues.

Agora, preso na parede, leva nostalgia à cozinha. O boxe virou, para ele, um museu de si próprio, de uma época que não reflete mais o homem que ele é hoje.

“Queria poder dar aulas para crianças, esses meninos que estão aí correndo na rua”, explica, aproveitando a deixa dos gritos da brincadeira de pega-pega dos moleques naquele fim de tarde. Ele reclama que não existem iniciativas que permitam a ele  trabalhar com o esporte e que, hoje, ele passa por dificuldades.

Para o treinador Luiz Dórea – que treinou o cruzalmense no início de carreira -, o destino de Sertão, campeão dos médios pela FIB em 2006, foi fruto de uma série de desventuras: “Foi tudo muito rápido. Ele foi campeão mundial por muito pouco tempo, porque perdeu logo depois. E, na hora da revanche, descobriu que tinha uma doença infecto-contagiosa e não poderia mais lutar”, lamenta o treinador.

Desde então, o ex-campeão deixou para trás a vida de atleta em São Paulo e voltou para a cidade natal, de onde nunca mais saiu. “Quando ele ia começar a ganhar dinheiro com o boxe, ele parou de lutar. Não teve a estrutura que outros campeões como Popó teve. Isso prejudicou muito Sertão. Se ele tivesse lutado mais vezes, mesmo que não tivesse resgatado o título, teria ganhado mais dinheiro”, opina Dórea, que também formou Acelino ‘Popó’ Freitas.

Ainda que tenha voltado ao ponto de partida, o ex-pugilista orgulha-se de ter sido um dos melhores do mundo: “Aqui, não sou tão reconhecido como em São Paulo, por exemplo. Me sustento com um salário mínimo. Eu queria ter um dinheiro melhor no fim do mês? Claro! Mas estou bem, sou feliz. As pessoas falam que eu perdi tudo, mas eu cheguei ao topo. Eu fui campeão mundial”, gaba-se.

Em abril, Sertão corrigiu uma das coisas que mais o incomodava. Somente através de uma vaquinha de amigos e radialistas o ex-lutador pôde viajar a São Paulo para rever os dois filhos do antigo casamento, que não via desde quando voltou para Cruz das Almas, em 2006. Além do casal, Sertão tem mais um filho, de 18 anos, que vive em Cruz das Almas.

Tentativas frustradas

O ex-pugilista chegou a participar de um programa esportivo da prefeitura de Cruz das Almas e diz  ter trabalhado em uma escola privada de boxe. As duas experiências, porém, duraram pouco.

De acordo com Mario do Jornal, atual vereador que foi secretário do Esporte de Cruz das Almas, Sertão foi, por seis meses, assistente num projeto da prefeitura em 2009. No entanto, no ano seguinte, o projeto não teve continuidade.

“Na época, eram 12 núcleos esportivos, o boxe era um deles. Sertão era assistente de instrutor, porque todos os instrutores precisam de formação em Educação Física. É assim com qualquer projeto que tenha ligação com autarquias estaduais (como a Sudesb) e empresas como a Petrobras, que é patrocinadora do nosso Centro de Referência do Esporte”, explica o político.

Para Luiz Dórea, o ideal para Sertão seria viver como treinador ou instrutor de boxe na cidade natal, já que Cruz das Almas revelou outros talentos na modalidade, como os meio-pesados Washington Silva e Cleiton Conceição.

“Cruz das Almas é um celeiro. De lá, vieram grandes atletas. Por que a prefeitura não ajuda a formar novos campeões? O Brasil só ajuda o atleta quando ele está em cima. Não aposta na base. Por que não apostam nas crianças? Por que uma empresa privada não aposta nisso?”, questiona o treinador. “A prefeitura deveria usá-lo em programas sociais, ou colocá-lo numa escolinha para a formação de novos atletas”, defende.

Já o jornalista esportivo Wilson Baldini Jr acredita que o ex-atleta ficou muito tempo “escondido”, e que a insistência em não sair de Cruz das Almas pode dificultar sua reinserção no boxe. “Talvez, se ele fosse para Salvador, conseguiria achar uma escola para dar aula com mais facilidade. Mas não ajuda o fato de ele ter se isolado quando perdeu o título. As pessoas esquecem”, justifica.

Fonte: A tarde

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