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Musical sobre Chico é interrompido em BH após comentário político

Uma apresentação da peça “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” em Belo Horizonte foi interrompida no sábado (19) após a plateia reagir a um comentário político do ator Claudio Botelho (codiretor da montagem, ao lado de Charles Möeller).

O caso levou Chico Buarque a declarar que não autorizará Botelho a usar suas canções em trabalhos futuros.

Segundo o relato de pessoas que estavam no teatro Sesc Palladium e do ator, o protesto foi motivado por um “caco” (improviso, no jargão teatral) na metade da peça, que retrata uma trupe teatral e transita entre canções dos quatro musicais criados por Chico.

A cena falava de uma cidade pequena em que ninguém fora ao teatro em uma noite.

“Era a noite do último capítulo da novela das oito. Era também a noite em que um ladrão ex-presidente talvez tenha sido preso. Ou uma presidente ladra recebeu o impeachment?”, disse Botelho, que faz o papel do dono de uma companhia teatral.

A fala motivou vaias de parte do público, e alguns espectadores se levantaram e se dirigiram à saída do teatro -segundo o ator, cerca de 25% da plateia. “Falei: ‘Vocês não são obrigados a ver a peça, podem pegar seu dinheiro de volta'”, conta Botelho

Parte do público começou então a entoar gritos de “Não vai ter golpe” -usados, nos últimos dias, em manifestações contra o impeachment.

A produtora de eventos Carolina Estelian, 32, que estava na plateia, diz que Botelho tentou “inverter a situação”. “Mas, em seu discurso, ele foi muito agressivo, manifestou um posicionamento pessoal que não cabia no momento.”

“Ninguém mais pode fazer nada, estou cerceado na minha liberdade de expressão”, diz o ator, segundo quem esse “caco” é sempre usado na peça para falar de política —mas foi a primeira vez que falou de Dilma e Lula

Depois, Botelho tentou retomar o espetáculo, sem sucesso: os gritos continuavam, apesar de parte da plateia também se opor aos manifestantes. As cortinas se fecharam e, pelo alto-falante, o teatro informou que os ingressos seriam reembolsados.

De acordo com o ator, que suspendeu sua conta no Facebook após o ocorrido, a reação das pessoas foi “muito agressiva”. “Comecei a ficar com medo. Tive que sair escoltado pela polícia. Eu corria o risco de linchamento.”

O diretor comparou a manifestação à censura do regime militar com a peça “Roda Viva” (1968), de Chico, encenada pelo Teatro Oficina – “As pessoas conseguiram fazer o que os militares fizeram com ‘Roda-Viva’: pararam uma peça”, diz ele à Folha.

A sessão de domingo (20) da montagem em Belo Horizonte, a última do musical para este semestre, também foi cancelada. Segundo Botelho, por motivo de segurança.

Milena Pedrosa, gerente do Sesc Palladium, afirma que “a peça já está há três anos em cartaz e não continha o trecho que provocou a plateia. Houve uma adaptação que o Sesc desconhecia”.

“O Sesc entende que essa fala não poderia ter sido feita sem nossa autorização, pois o Sesc é uma instituição apartidária. A gente entende que o posicionamento do artista foi inadequado.”

ÁUDIO

Um áudio divulgado na internet registra Botelho no camarim, logo após a sessão.

Nitidamente exaltado, Botelho diz que os manifestantes “são neofascistas, são escrotos, são petistas, são o que há de pior no Brasil.”

No áudio, Soraya Ravenle, atriz da peça, discorda dos argumentos do ator e diz que o público tinha direito de vaiar, porque Botelho provocou.

Após a publicação do áudio, o diretor foi acusado em sites e redes sociais de racismo pelo trecho em que diz:

“Essa gente chega e peita um ator que está em cena. Um ator que está em cena é um rei, não pode ser peitado. Não pode ser peitado por um negro [ou nêgo, segundo o diretor], por um filho da puta que está na plateia. Eu estava fazendo uma ficção.”

“Quis dizer ‘nêgo’, a gíria, no sentido de ‘alguém’, não é uma questão racial. Não sou racista”, afirma à Folha o ator, que não sabe quem gravou o áudio, mas diz que está tentando, na Justiça, tirá-lo do ar.

Na discussão com Soraya, a atriz diz que não concorda com Botelho e que ele “tocou na ferida que está aberta a semana inteira”. “Soraya é muito panos quentes. Aquilo não é uma briga, a gente é muito amigo. Eu estava muito nervoso”, conta o ator à Folha.

CHICO

Segundo a assessoria de Chico, artista historicamente alinhado ao PT, o compositor “reagiu com espanto e muito desagrado à postura de Claudio”. Botelho disse que soube pela imprensa que Chico não mais cederia seus direitos ao ator, embora tenha conversado com Vinicius França, empresário do compositor.

“Continuo fã de Chico, ele é o maior artista da minha geração. Só fico sentido por não terem me ouvido”, diz o ator.

“Fico um pouco chocado com o cerceamento da minha liberdade, vindo de um artista que recebe ódio da internet direto”, acrescenta.

“Alguém que sofreu tanto com a ditadura e a censura agora tem uma atitude diante de uma situação bastante similar, mas de um lado diferente.”

 

Fonte: r7

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