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Óleo em manguezais deve afetar o bioma por muito tempo

Mais de um mês após as primeiras manchas de óleo chegarem à costa litorânea baiana, 21 dos 28 municípios atingidos estão em estado de emergência. Mesmo naqueles sem registro de novas manchas e sem material visível nas praias, as consequências podem perdurar por muito tempo, especialmente onde áreas de manguezal foram atingidas.

Conforme divulgado anteriormente por A TARDE, o óleo atingiu pelo menos manguezais localizados nos municípios de Jandaíra, Rio Real, Conde, Mata de São João, Camaçari e Entre Rios.

A lista oficial foi solicitada ao Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia) e ao Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente), mas o primeiro não retornou até o fechamento dessa edição, e o segundo informou que esses dados ainda não estão compilados.

“O manguezal tem uma série de características próprias que fazem com que a remoção desse óleo seja dificultada” explica Miguel Mies, pesquisador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de pesquisas do projeto Coral Vivo, sediado no município de Porto Seguro.

Antes de detalhar esses fatores, Mies comenta que as pessoas não costumam dar atenção aos manguezais por conta da aparência e odor, mas ressalta que esses ambientes são muito importantes, por serem berçário de várias espécies.

O pesquisador diz que o primeiro ponto é que as áreas de manguezal têm água relativamente parada, então o depósito de contaminantes e outros materiais é mais fácil. “Quando o óleo chega ali, ele fica ali, ele não é lavado para longe como acontece, por exemplo, num recife de coral”, reforça.

Outro fator que dificulta a remoção do óleo é a estrutura lamosa, formada por sedimentos finos. “O impacto é grandíssimo porque a gente mal consegue remover (o óleo), nem manualmente a remoção é fácil”, esclarece. Soma-se a isso, o fato de que é difícil acessar algumas dessas áreas, o que muitas vezes exige o uso de barcos.

O oceanógrafo comenta que o resultado a longo prazo pode ser até mesmo a extinção dessas áreas contaminadas, o que comprometeria a continuidade das espécies que se reproduzem ali. “Além disso tem uma série de pessoas que usam o manguezal para o seu sustento. Coletam caranguejos, moluscos…, e se um pouco disso for coletado e consumido, vai representar um risco para a saúde humana”, acrescenta.

“O impacto nos manguezais será bastante prolongado. Mesmo que o óleo seja removido, o período que ficou ali já causou dano que exigirá tempo para recuperar”, explica Mies. Ele esclarece que não é possível prever o tempo necessário para o reequilíbrio. Dessa forma, o momento para retomada segura da pesca e mariscagem dependerá do monitoramento da presença de substâncias tóxicas até que elas cheguem a níveis não prejudiciais à saúde humana.

Corais

No laboratório do Coral Vivo, em Arraial d’Ajuda, estão sendo desenvolvidas duas pesquisas relacionadas aos problemas gerados pelo óleo que tem atingido as praias do Nordeste. Segundo Miguel Mies, coordenador de pesquisas do projeto, uma delas está focada no impacto desse material sobre os corais e a outra tem como objetivo estudar as formas de minimizar os danos.

A pesquisa sobre o impacto do óleo está dividida em duas frentes: a primeira está centrada na ação da fração solúvel desse óleo e a segunda nos danos causados pela borra do petróleo, que é basicamente o material que chega às praias.

De acordo com Mies, as observações mostraram que essa parte solúvel começa a afetar o coral em quatro dias e mata o animal em dez dias. “Como esse óleo caiu há bastante tempo e muito longe, pouquíssimo dessa fração solúvel está chegando na costa. Isso é uma excelente notícia”, ressalta.

Ele explica que essa fração é composta por uma grande quantidade de substâncias tóxicas e algumas delas são mutagênicas, ou seja, capazes de produzir mutações em células humanas.

No caso da borra, os testes mostram que os corais repelem o material, começando um processo de expulsão logo após o óleo ser depositado sobre os animais. “Acho que no ambiente natural é melhor, porque nos nossos experimentos a gente usa aquários com água estática e no recife de coral tem muita circulação, o que ajudaria a tirar o óleo com maior facilidade”, avalia Mies.

Ainda em fase inicial, a pesquisa sobre meios de mitigação busca o desenvolvimento de materiais biodegradáveis que facilitem a remoção do óleo sem causar danos ao coral. De toda forma, a pesquisa do projeto está um passo adiante do desastre do vazamento, pois até o momento não há registro de recifes de corais atingidos pelo óleo.

Por: A Tarde

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