
Em São Paulo, uma moto sobe a rua em velocidade. O jovem que a conduz diminui a marcha e joga o corpo para trás. Após acelerar, empina o quadro e se equilibra só na roda traseira. Ao chegar a 90 graus de inclinação, raspa a placa no chão. Enquanto pousa a roda dianteira no asfalto, ele acelera até o motor atingir sua capacidade máxima de giro. Esse corte do giro é o que provoca um estrondoso “ran-dan-dan-dan” ou “bololô” – a depender de quem escuta.
Descrita acima, a manobra conhecida como grau é moda entre jovens motociclistas da periferia, que driblam a polícia e enfurecem moradores. Além disso, cometem uma infração gravíssima de trânsito e arriscam a vida. Empinar motos só perde para a ausência de capacete entre a imprudência, segunda maior causa de acidentes sobre duas rodas, mostra uma pesquisa.
Nada disso, porém, afasta do asfalto os grauzeiros. Nem poderia. Alguns deles contaram que a moto é lazer só aos domingos. Nos outros dias, é objeto de trabalho, pois trabalham como entregadores. De tão entranhado à rotina de comunidades, o grau ganhou status de cultura e já molda a linguagem desses jovens e permeia a música que faz a cabeça deles, o funk.
Ainda vistas com maus olhos na periferia, as manobras ganham ares de esporte em outros ambientes. E, no Congresso Nacional, já contam com uma defensora, a deputada federal Alessandra Silva (PSL-MG), apelidada de “madrinha do grau”.
O toque na moto
O sonho de quem chama no grau é ser o toque na moto, gíria que se refere à habilidade invejável dos que conduzem com destreza. Esse é o desejo de Phelipe Pinas, 24, e Ronan Leite, 25, da Cidade Tiradentes, extremo leste da capital paulista. Ambos são entregadores — para um app de delivery de segunda a sexta e para uma pizzaria do bairro no período da noite de quinta-feira a domingo. É só nas tardes de domingo que pilotam as motos sem as caixas de entrega nas costas. Amigos de infância, os dois viram a paixão pelo grau nascer quando ainda andavam de bicicleta.
Quando eu estou em cima da moto e dou um grau o estresse vai para fora. A adrenalina toma conta e é uma sensação inexplicável”
Com eles, a reportagem viu outra dezena de motociclistas acelerar, cortar giro e fazer manobras em uma rua extensa, sem curvas e pouco movimentada do bairro. “O pessoal vem dar grau aqui porque tem uma feira de domingo no começo da rua e fica mais difícil de ter patrulhamento da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas, da Polícia Militar de SP) nesse horário”, explica Pinas montado em sua Honda CG 160.
Ronan ostenta uma Honda CB Twister 250 modelo 2021, mas cita outras aquisições que já teve, como uma “meiota”, gíria para o modelo de moto da Yamaha [XT 660R] e uma Titan.
‘Sujeito a cacete’
Se, para esses jovens, acelerar e empinar um “robozão”, gíria para motos de alta cilindrada geralmente importadas, é símbolo de status e euforia, a atividade está longe de ser aceita pela comunidade. Por isso, Ronan procura espaços mais reservados para as manobras. “Não acho certo ficar dando grau em rua normal. A gente se reúne nesta mais deserta para não atrapalhar ninguém. Mas, dentro da minha família, escuto muita coisa negativa por dar grau”, diz.
Enquanto conversam com a reportagem e são fotografados, alguém grita: “Rocam!”. Antes mesmo de qualquer patrulhamento surgir, as motos se dispersam. O clima de tensão permanece até Pinas voltar sorrindo: “Alarme falso”.
A ideia de estar em constante estado de alerta e de que não são bem-vindos é comum entre os grauzeiros. Quando não são coibidos pela fiscalização, enfrentam a hostilidade em muitos bairros. Em algumas ruas de Cidade Tiradentes, alguns moradores estendem faixas que não deixam em dúvida sua opinião sobre o grau: “é proibido empinar a moto e tirar de giro – sendo sujeito a cobrança e cacete”.
O bololô do robozão
O funk e o rap não só embalam as manobras como também absorvem muito dos símbolos que orbitam a cultura do grau, do som do motor acelerando às gírias. Rincon Sapiência, por exemplo, canta em “Cotidiano”:
E sem efeito especial, eu vejo os robozão
Pode avisar que é real e não é Hollywood
Que o número da sorte seja 660….
Acelerou é bololô e tchau! Passando marcha, acelera e vrau
O equilíbrio pra chamar no grau
Lá na quebrada é fundamental”
Doutor em Música pela USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador do funk enquanto fenômeno cultural, Thiago Alves explica que a geografia e outros fatores sociais são essenciais para compreender esse fenômeno.
A música é uma atividade social inseparável das condições de vida material, e tanto o funk quanto a cultura das motos acontecem nas quebradas. A moto é um veículo automotivo mais barato que o carro e que facilita a mobilidade urbana, algo muito importante na vida periférica”
Com a pandemia, diz ele, as motos viraram ainda símbolo de trabalho para entregadores. Isso explica sucessos como “Eu achei” do Paulin da Capital”, com versos como “Minha nave jogada na mata / Sem a frente, toda depenada / Ela tava nesse cemitério / Onde o GPS não ligava / No lugar que não entra polícia”.
O fenômeno não ocorre apenas na periferia de São Paulo. O meme “Leia livros e empine motos” viralizou após um post do perfil no Instagram Funkeiros Cults, criado por Dayrel Azevedo, 21 anos, de Manaus. Na capital amazonense, os jovens sonham em ter uma moto para entrar na onda do grau.
Vejo o grau como um esporte da periferia. É comum encontrar homens e mulheres empinando a moto por aqui. Isso está crescendo e muitas pessoas sonham em ter uma moto.”

Glossário da cultura do grau
- Cortar o giro/ tirar de giro/enrolar o cabo:Acelerar o motor até a rotação máxima, geralmente pressionando a embreagem. Isso provoca o chamado “corte de giro do motor”, mecanismo que preserva o conjunto mecânico quando ele atinge o giro máximo. A ação provoca sons altos.
- Surfe ou suicida:Manobra em que o piloto se equilibra em cima da moto e a faz de prancha de surfe. Cair nessas ocasiões pode ser bem perigoso, o que faz a manobra ser também chamada de suicida.
- Robozão:São motos de alta cilindrada e geralmente importadas. Marcas geralmente chamadas desse modo são Tiger Triumph e BMW.
- Borrachão:Manobra em que o piloto destraciona a roda traseira, acelera a moto em alta rotação, mas não sai do lugar. A ação faz fumaça subir.
- Raspão ou raspada:Tipo de grau em que o piloto empina a moto e raspa o escapamento e/ou placa no chão, gerando faíscas pelo atrito.
- Dar um quebra:Desviar de um obstáculo bruscamente ou fazer uma curva com a moto inclinada usando apenas o peso do corpo para fazer o zigue-zague.
- Tocar a moto/é o toque:Gíria para identificar motociclistas que pilotam bem. Exemplo: “O pai é o toque”.
- Rodograu:Ruas ou vias desertas e com pouco patrulhamento policial cobiçadas por motociclistas para dar grau.
- RL:Do inglês “Rear Lift”, a manobra consiste em elevar a traseira da moto, inclinando o quadro sobre a roda frontal e parando por alguns segundos.
Fonte e Foto: UOL Carros





