
Calado e de poucas entrevistas em 2013, o oposto de quando governou Cruz das Almas por oito anos, o ex-prefeito Orlandinho (PT) concedeu entrevista exclusiva ao Bahia Recôncavo em sua casa e decidiu falar sobre diversos temas. “Aliviado”, após a aprovação de suas contas do exercício 2012, o petista comentou sobre a atual administração do município, as críticas feitas à sua gestão e a possibilidade de sair candidato a deputado estadual em 2014.
Bahia Recôncavo – Após um ano fora da Prefeitura, qual é a sua avaliação do atual governo de Cruz das Almas?
Orlandinho – Na condição de ex-prefeito eu não me sinto na obrigação de ficar fazendo avaliação do atual governo. Aliás, eu sempre disse que não ficaria com esse fantasma na cabeça. Eu torço para que melhore a cada dia.
Bahia Recôncavo – Mas o senhor é um ser político e deve ter sua avaliação. Qual é?
Orlandinho – Pelo o que eu tenho ouvido da população, resumindo em uma palavra, é decepção. Resumindo em uma frase o que eu tenho ouvido da população é: de fato mudou. Mas mudou para pior.
Bahia Recôncavo – Como o senhor recebe as críticas feitas pelo atual gestor à época em que o PT governou Cruz das Almas?
Orlandinho – Nenhuma administração achou uma cidade com um conjunto de obras e ações para que o outro governo pudesse inaugurar. O governo atual não pode se queixar. Em hipótese alguma. Deveria agradecer pelo conjunto de convênios que deixei.
Um exemplo é o Centro de Apoio Pedagógico, que ficou pronto. Até a placa com meu nome foi retirada de forma desrespeitosa. O nome em homenagem ao saudoso Claudemiro Dias Pamponet [ex-prefeito] foi o nosso governo que propôs. Eles apenas colocaram o letreiro, placa de forro e deram pintura nova.
Bahia Recôncavo – Existem outras obras nesta mesma situação?
Orlandinho – A pavimentação do Alagados, na Sapucaia. Foi uma emenda conseguida pelo vereador Max Passos (PP). A pavimentação do Loteamento Planalto, no Itapicuru. Deixamos essa obra mais de 50% realizada e com recursos em caixa. A pavimentação da Fonte do Doutor, deixamos com recurso em caixa. A pavimentação do Vilarejo I e II também fomos nós que conseguimos. A creche da Pumba a atual administração tem que dá uma resposta à população porque está completamente concluída. Falta apenas a colocação das portas.
Os dois projetos do Minha Casa Minha Vida. Na Embira e na Pumba, foram conseguidos pelo nosso governo. Eu tenho provas que o alvará e o projeto de diagnóstico e negociação com a Caixa Econômica Federal foram feitos pelo nosso governo. Da mesma forma, as casas que estão sendo construídas entre a Pumba e a Lisboa. A Praça do Esporte e da Cultura, no Miradouro, nós deixamos com recurso também. Fomos nós que conseguimos.
Bahia Recôncavo – E os outros setores, como o senhor analisa?
Orlandinho – Não vejo avanço em nenhuma área. O emprego refluiu, a economia desaqueceu, os comerciantes estão reclamando e a saúde não melhorou.
Bahia Recôncavo – A atual administração acusa o senhor de ter fechado a UTI de Cruz das Almas em 28 de dezembro de 2012. Isso ocorreu?
Orlandinho – 28 de dezembro de 2012 foi o último dia útil da minha administração. É bom lembrar a eles. Quem fechou a UTI foram eles no dia 01 de janeiro. Eles lacraram a UTI. E para surpresa nossa, pensamos que os recursos da UTI não estavam vindo. Mas continuaram. Foi o Ministério da Saúde quem notificou eles a reabrir a UTI porque eles estavam recebendo os recursos. Mais de R$ 100 mil por mês desde janeiro. Por que não colocaram a UTI para funcionar? Só colocaram agora no final do ano, e ficam com conversa que foi o deputado A e o deputado B que conseguiu. Coisa nenhuma! A população não engole isso. Eles reabriram a UTI porque o Ministério da Saúde notificou eles para reabrir porque eles recebiam dinheiro da alta complexidade. Tomara que esse dinheiro não tenha sido utilizado em outras coisas. Eu não fechei UTI nenhuma. Eu fiquei um ano só observando. São inverdades.
Bahia Recôncavo – Existe a acusação que o senhor fechou os Postos de Saúde da Família (PSFs) após perder a eleição. É verdade?
Orlandinho – Os PSFs estavam no perído de férias quando eles assumiram. Isso ocorreu todos os anos.Mais uma balela. Eu encontrei Cruz das Almas com apenas dois PSFs. Cobertura de 12%. Deixei com 12 PSFs. Cobertura de 66%. Quantos PSFs tem em Cruz das Almas hoje? Tem 12. Eles não abriram PSF novo. Apenas trocaram de endereço para colocar placas com o nome deles. O que mede se tem novos PSFs ou não é porcentagem de cobertura. Olhe se não é a mesma [cobertura]. Inaugurar PSF no IPER cabe provocação ao Ministério Público.
Bahia Recôncavo – E a oposição vai fazer essa provocação?
Orlandinho – Eu acho que é necessário. Se eu desse um espirro, os oposicionistas entravam no Ministério Público. Eu espero que os vereadores [de oposição] façam esse tipo de provocação. Hospital é hospital. PSF é feito fora de hospital para diminuir o fluxo [de pacientes].
Bahia Recôncavo – Para quem não queria analisar a atual administração, o senhor foi muito contundente, não?
Orlandinho – Não queria entrar nessa polêmica. Mas fiquei um ano calado ouvindo as mentiras com meu nome. Tem uma hora que é preciso responder. Não vou ficar nesse jogo de disse me disse toda hora. A população de Cruz das Almas sabe que foi o Governo do Povo que trouxe CRAS, CREAS, CAPS, UFRB, UPA, SAMU, implantou 10 PSFs, pavimentações em toda a cidade, trouxe PAC Saneamento e outras melhorias. A população está comparando. Eu não vou ficar brigando. Vou responder. Mas eu desejo sucesso.
Bahia Recôncavo – Ainda em relação a atual administração de Cruz das Almas. O senhor é acusado de não ter feito a transição de governo, após as eleições?
Orlandinho – Outra falácia! A controladora do município à época, Soneany Machado, o secretário da Fazenda [Vinícius Munford] e a comissão de transição entregaram ao atual governo os documentos necessários e exigidos pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Eu tenho isso protocolado. Eu entreguei.
Mas é bom lembrar que a transição não ocorreu no tempo previsto por causa da demora na Justiça Eleitoral em divulgar quem era realmente o prefeito eleito em Cruz das Almas. Isso não é culpa minha. Eu tenho dois ofícios endereçados à juíza eleitoral da primeira instância e ao TRE consultando para quem eu deveria fazer a transição. Não fui respondido. Caso ele [Raimundo Jean] queira fazer esse debate na Justiça, eu topo. Eu tenho todos os documentos. E ele sabe disso. Se não ele já teria feito essa provocação [na Justiça].
A juíza não me respondeu em nenhum momento. Apenas dia 19 de dezembro, após a diplomação do novo prefeito, que eu recebi uma informação que o atual prefeito seria empossado. Essa história é conto da carochinha para explicar a falta de articulação, inércia e incompetência do atual governo.
Bahia Recôncavo – Por que o senhor não fez a transmissão de cargo?
Orlandinho – Porque eu fui extremamente desrespeitado. Eu e minha família. Tocaram aqui na porta de casa bombas que quase causam problemas de saúde a meu pai e minha mãe. Tocaram uma girandola aqui na porta de casa. Eu tive que chamar a polícia três vezes. As pessoas paravam de moto aqui na frente de casa e me agrediam. Não foi somente no dia da eleição. Fizeram isso por quase três meses. Eu sou pacífico e humanista, mas eu não poderia participar de uma celebração de transmissão de cargo quando eu fui extremamente agredido. Eu, minha esposa, meu pai e minha mãe.
Bahia Recôncavo – O senhor teve suas contas de 2012 aprovada recentemente pelo TCM. Por que existe cada vez mais prefeitos com as contas rejeitadas?
Orlandinho – Eu comemorei muito a aprovação de minhas contas de 2012. A primeira coisa que fiz foi ir à igreja agradecer. O [jornal] Valor Econômico revelou que 72% do PIB fica com a União.O resto é dividido entre estados e municípios. Nós temos que fazer um novo pacto federativo para que a União repasse mais dinheiro e tem que fazer uma revisão da Lei de Responsabilidade Fiscal. Principalmente em dois itens: os projetos do governo federal implantados nos municípios não sejam mais subfinanciados. Isso faz com que as folhas das prefeituras cresçam muito. A outra coisa é a flexibilização do índice de pessoal. Um prefeito não pode ser penalizado porque ele fez demais. Fazer PSF, creche, CRAS, CREAS, CAPS e outros programas, eleva o índice [de pessoal]. Tem que discutir isso. Felizmente eu consegui aprovar minhas oito contas.
Bahia Recôncavo – A aprovação de suas contas permite que o senhor siga sua carreira política. Orlandinho pensa em novo mandato?
Orlandinho – Eu gosto da atividade política porque compreendo e exercitei isso como gestor, militante e vereador. A política é uma atividade ampla de lidar com as pessoas e mudar para melhor a vida das pessoas. Fizemos isso em Cruz das Almas, ao colocá-la como o nono Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Bahia. É bom lembrar que o Estado tem 417 municípios. Eu estou animado para continuar. Isso faz parte da minha alma. Eu milito há mais de 20 anos no PT e vou continuar fazendo política.
Bahia Recôncavo – Vou ser mais direto. O senhor pensa em candidatura a deputado estadual em 2014?
Orlandinho – Desde já posso anunciar que minha pré-candidatura a deputado estadual está posta. A possibilidade é muito ampla. Tenho conversado com diversas lideranças do PT, a exemplo do senador Walter Pinheiro (PT), o deputado federal Afonso Florence (PT), com o secretário estadual de Comunicação, Robinson Almeida (PT), com o vereador de Salvador Gilmar Santiago (PT) e a deputada estadual Neusa Cadore (PT), que são do meu campo dentro do PT. Nós estamos discutindo minha provável candidatura com muito carinho. Eu posso dizer que a pré-candidatura está colocada. Não existe mais nenhuma dúvida em minha cabeça. Comecei a visitar prefeitos, vereadores e lideranças de cidades do Recôncavo.
Bahia Recôncavo – O senhor acredita na possibilidade de eleição ou está mantendo seu nome “quente” para 2016?
Orlandinho – Eu não preciso marcar posição. Eu não preciso sair candidato [a deputado estadual] para me credenciar à próxima eleição [2016]. Credenciado eu já estou em Cruz das Almas pelo meu mandato de vereador e pelos dois de prefeito. Foram muito bem avaliados. Saí da Prefeitura com mais de 72% de aprovação. Eu quero sair candidato para me eleger e discutir a agenda de Cruz das Almas, do Recôncavo, [Vale] do Jiquiriçá, Baixo-sul e da Bahia.
Bahia Recôncavo – E o que o senhor tem feito para conseguir essa eleição?
Orlandinho – O jogo começa a ser jogado agora. Eu sou servidor público estadual. Tinha que cumprir expediente de dois turnos na EBDA. Agora eu estou mais na política. Cuido do mandato do senador Walter Pinheiro na Bahia. Estou em Brasília eventualmente. Estou começando a fazer a discussão agora. Como todo mundo. Nós temos uma possibilidade muito boa no Recôncavo. Faço uma análise de que vamos ser votados na Região Metropolitana [de Salvador], Vale do Jiquiriçá, talvez Baixo-sul e outras regiões da Bahia.
Bahia Recôncavo – Quais são suas funções neste cargo que o senhor assumiu recentemente no mandato do senador Walter Pinheiro?
Orlandinho – Cuidar do mandato na Bahia. O senador é uma das figuras mais prestigiadas no Congresso. Pinheiro tem a capacidade de formular políticas públicas dentro do Congresso. Minha função é cuidar das demandas que chegam no gabinete. Fazer a ponte entre prefeitos, vereadores e senadores e outras pessoas que precisam debater com o senador. Fazer encaminhamento da desmandas como problemas de convênios. Uso minha experiência de oito anos como prefeito de Cruz das Almas para esse serviço. É uma tarefa larga e ampla.
Bahia Recôncavo – Uma possível candidatura do senhor a deputado estadual seria chancelada pelo senador Walter Pinheiro?
Orlandinho – Sem sombra de dúvida. Tenho conversado com ele desde o primeiro momento em que fui convidado a assumir o cargo em seu mandato. Pinheiro tem um carinho muito grande por Cruz das Almas, pelo Recôncavo e por mim. Temos uma relação de 20 anos. Ele me conhece muito bem.
Bahia Recôncavo – O evento deste dia 20 de dezembro, no Gramados, em Cruz das Almas, é um pontapé dessa sua possível candidatura?
Orlandinho – Ainda não há candidatura. Que fique muito claro. Há a vontade de sair candidato. Mas o evento é uma confraternização. De amigos, de pessoas que sempre estiveram na nossa orientação política e que compõem conosco. É um encontro com a militância, independente de serem filiados ao PT. Foi um ano muito difícil. Muito duro. E dispersamos um pouco. O que é natural para quem perdeu a eleição. É um momento de reencontro. Vamos colocar a conversa em dia.
Bahia Recôncavo – Qual é a agenda do Recôncavo, do Vale do Jiquiriçá e do Baixo-sul, locais que o senhor pensa em representar, caso seja eleito?
Orlandinho – Ampliação da UFRB, a proteção das nascentes que desaguam no rio Paraguaçu, o patrimônio histórico e arquitetônico das cidades da região, discutir a agricultura familiar, a superação das limitações no fornecimento de água, segurança pública, fortalecer os consórcios municipais e um conjunto de ações.
Bahia Recôncavo – Como o senhor viu a escolha de Rui Costa (PT) para pré-candidato do PT à sucessão de Jaques Wagner (PT) em 2014?
Orlandinho – O que passou, passou. O primeiro cenário foi a escolha do candidato. Já ocorreu. Tínhamos quatro bons nomes. Esse cenário é passado. O PT vai discutir o cenário da política real. Rui Costa é o nosso nome para disputar 2014. É nosso companheiro e tem a legitimidade e credencial para disputar. E nós vamos apoiar e defender. Eu tenho absoluta convicção que a população vai dá continuidade ao projeto de republicanização e avanço do estado. Não tenho a menor dúvida disso.
Bahia Recôncavo – Qual a sua leitura da eleição nacional?
Orlandinho – Não existe eleição ganha. Apesar dos números serem favoráveis a Dilma. Pode ter um time mais forte, outro mais fraco. Pode arriscar opinião. Eleição tem que ser construída, mesmo que o governo seja bem avaliado e tenha avançado muito. O Brasil sabe quem mudou esse país. Tenho convicção que o PT continuará governando porque tem o melhor projeto. Deve e pode avançar mais. Mas sem dúvida nenhuma temos o melhor projeto.
Entrevista e foto: Maurício Medeiros





