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OPINIÃO: Discurso de Maria Cedraz e pedido de anistia em aniversário do golpe militar é escárnio contra democracia

Despretensiosamente, procurei a última sessão da Câmara de Vereadores de Cruz das Almas, horas após a veiculação ao vivo no YouTube, realizada na noite de segunda-feira, 31. O meu desejo era acompanhar as pautas, as discussões políticas e todo o cerimonial que reuniões parlamentares regimentalmente pedem. Não constava nas minhas vontades o ânimo necessário para escrever sobre este encontro, visto a falta de timing, ocasionado pela minha morosidade em assistir à sessão.

De início, meus olhos observaram a maneira protocolar, às vezes monótona, que uma sessão ordinária é. Sem muito sal, nem muito açúcar. Nada além do esperado. Com saudações, falatórios, agradecimentos e pedidos. Às vezes com um pouco de pimenta, quando oposição e situação batem boca. 

No entanto, eis que um fato perturbador sacudiu a minha mente, invadiu os meus pensamentos e instigou-me a refletir publicamente sobre os desdobramentos deste encontro. Algo inesperado, do meu ponto de vista, talvez pela simbologia do dia 31 de março, talvez pela minha letargia enquanto acompanhava o encontro. E logo revelo que este fato é referente às falas da vereadora Maria Cedraz (PL), que ironizou a prisão de Débora Rodrigues dos Santos, uma das pessoas envolvidas na Invasão aos Três Poderes que pedia a abolição violenta do Estado Democrático de Direito por não aceitar o resultado das eleições de 2022.

O início

Tudo começou por volta das 22h07, horário local – ou a partir de 2 horas, 22 minutos e 35 segundos na gravação disponível no YouTube – quando Maria Cedraz subiu ao púlpito, já no Grande Expediente, e começou a discursar. Fiquei entusiasmado em vê-la falar publicamente, sem limitações, visto que isto era uma resposta visível da recuperação de um problema de saúde que a havia afligido recentemente. Logo depois, meu entusiasmo foi dando lugar ao incômodo das palavras ásperas que ouvi.

“Primeiro eu quero agradecer aos colegas que se manifestaram, que sempre tiveram mandando mensagens para que a gente (seu mandato) ficasse boa e estivesse de volta nesta tribuna”, começou o discurso.

Em seguida, o rosto afável e receptivo deu lugar a uma expressão mais carrancuda, típica de líderes que desejam denunciar algo, falar diretamente com seu público.

E continuou: 

“Primeiro, estamos em 31 de março, último dia do mês da mulher, e eu quero fechar este mês com a minha homenagem, minha sensibilidade à Débora Rodrigues, a mulher do batom. Uma mulher que foi condenada a 14 anos por usar um batom para escrever como quem está usando uma grande arma para um grande golpe. 

Quero chamar todas as mulheres de Cruz das Almas que usam batom para ouvir essa frase: cuidado! Você está usando uma arma poderosa! Você pode pegar 14 anos de cadeia pelo uso do batom. Por isso, eu, esta noite, me levanto para me sensibilizar com a história da manicure Débora, que graças a Deus, depois de toda manifestação da mídia, nós tivemos um desfecho melhor para Débora, que é a prisão domiciliar. Mas Débora, nós estamos contigo. E nós vamos lutar pela anistia do 8 de janeiro”, concluiu.

À essa altura, um frio subiu-me pelas entranhas, atingiu-me o estômago em forma de náusea, e por fim, à boca em forma de fel. 

Como Cedraz verbalizou no início, o discurso ocorreu nas últimas horas do dia 31 de março, último dia do mês da mulher. Além disso, esta também é a famigerada data do golpe militar, ocorrido em 1964.

Enquanto a mídia, instituições sociais, educacionais e políticas trazem ao debate público os 61 anos da deflagração da Ditadura Militar, lembrando os efeitos desastrosos na sociedade brasileira que perduram até hoje, a edil resolveu, coincidentemente ou não, ironizar os crimes cometidos por vândalos golpistas no dia 8 de janeiro de 2023 e, por cima, conclamar por anistia. 

Estes -e repito- vândalos golpistas, não respeitando a decisão democrática das eleições brasileiras, resolveram, a bel-prazer, tomar o poder à força. Não se trata de pessoas alegadamente inocentes, embora o julgamento, até o momento, não tenha atingido o trânsito em julgado.

Lastimável! A amargura sentida nasceu da insatisfação de achar que, 61 anos depois, veríamos a democracia como a única rota viável. Não aceitaríamos mais golpistas e pediríamos justiça contra aqueles que tentassem impor ditaduras sobre nós.

O contexto

Ao leitor que pouco tem acompanhado o cenário político nacional, dedico uma breve contextualização deste caso. Débora Rodrigues dos Santos estava presa preventivamente desde março de 2023, quando, insuflada pelos discursos do ex-presidente Jair Bolsonaro, invadiu, em conjunto com outros vândalos, a sede dos Três Poderes, no Distrito Federal. Débora foi flagrada pichando a estátua da Deusa da Justiça, em frente ao STF, com os dizeres “Perdeu, Mané”, frase dita pelo ministro Luís Roberto Barroso, que reagiu à hostilidade de manifestantes pró-Bolsonaro em Nova York, em 2022. Além disso, ela é acusada por outros quatro crimes, que podem chegar a 14 anos de prisão. Débora está, neste momento, em prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica.

Os outros crimes de que Débora está sendo acusada são: abolição violenta do Estado Democrático de Direito; tentativa de golpe de Estado; dano qualificado com violência e associação criminosa armada. Além dela, outras 1.430 pessoas foram presas, segundo dados do STF.

A nova roupagem

Partindo do mesmo ponto de vista de Cedraz, grupos de extrema direita vêm construindo a imagem de que a ré, que é mãe, trabalhadora, e usou um batom para pichar a estátua, sofre a imposição de uma ditadura do judiciário brasileiro. E, por essa razão, é necessário aprovar o Projeto de Lei 2.858, conhecido como Lei da Anistia, a fim de apagar o vandalismo e o simbolismo do dia 8 de janeiro de 2023 na história do Brasil.

E, pasmem! Para além disso, o Partido Liberal (PL), o mesmo de Maria Cedraz, pretende se aproveitar da comoção pública e estuda lançar Débora Rodrigues dos Santos nas eleições do próximo ano. Um escárnio a nós, cidadãos de bem, que vimos empreendendo fortes embates contra golpismos. 

O fim?

Talvez este seja um texto em que refleti de forma ingênua a realidade. Talvez o ingênuo tenha sido eu ao acreditar que certos valores deveriam ser considerados essenciais por todos. Talvez a política seja isso: retórica, dialética e confusão. No entanto, ainda sigo convicto em expor acima as angústias que senti.

Por Leonardo Gonçalves

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