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Luiz Alberto: ‘a população quer mais espaço de debate’

O deputado federal Luiz Alberto (PT) concedeu entrevista exclusiva ao Bahia Recôncavo em visita à Rádio Santa Cruz FM durante o São João de Cruz das Almas. O parlamentar falou por quase uma hora sobre diversos assuntos. O petista descreveu os movimentos nas ruas brasileiras como “fundamentais” e classificou os pedidos da população como “segunda geração de políticas públicas”. Para ele, apesar de representar o poder central, Dilma não sairá prejudicada dos protestos, mas defende que o governo e o partido entendam o debate proposto.

Nascido no Recôncavo, em Maragojipe, Luiz Alberto acha que ainda é cedo, mas fala sobre a sucessão de Jaques Wagner e as estratégias do PT para eleger um deputado estadual da região. Orlandinho e Sílvio Ataliba tentam viabilizar suas candidaturas. O parlamentar revelou ainda como está o andamento das obras da estrada Cruz das Almas a Maragojipe e sua perspectiva sobre a instalação do Estaleiro do Paraguaçu.

Bahia Recôncavo – Como o senhor viu as manifestações que ocorreram no Brasil neste mês de junho?

Luiz Alberto – O Brasil tem uma democracia conquistada à duras penas e relativamente recente e essa juventude não viveu o período de luta pela democracia. Até pela repressão da ditadura, não aprendeu a se manifestar e passou esse longo período sem canais objetivos que permitissem colocar nas ruas seus objetivos como cidadão.

Nos últimos doze anos Lula desmontou uma forma de governar tradicional. Começou a mobilizar através das conferências temáticas. Isso mobilizou vários setores da sociedade que até então não tinha voz. Isso virou um caldo de cultura. O governo atacou as dificuldades sociais e tirou mais de 40 milhões de pessoas da miséria. Elas entraram num patamar de consumo de bens, que é parte da cidadania. É o que eu chamo de segunda geração de políticas públicas, que nós temos que discutir. O PT precisa ouvir o processo de mobilização das ruas. É bom para o Brasil.

É importante que as autoridades, e estou me incluindo, de todos os níveis, ouçam essa voz e passem a perceber o que está acontecendo. São várias demandas: mobilidade urbana, o sistema político brasileiro e muitos outros.

Bahia Recôncavo – Qual deve ser a postura do governo de Dilma Rousseff e do PT depois deste recado das ruas?

Luiz Alberto – Ela fez um pronunciamento importante. Primeiro reconhecendo o espaço democrático, segundo dizendo que nós estamos atentos e ouvindo as vozes das ruas e terceiro que as políticas públicas trazidas por nós há 10 anos começaram a se exaurir e precisamos discutir outras políticas públicas. Quando você coloca um jovem negro e pobre na universidade, é lógico que quando ele sai (da faculdade) terá outra perspectiva. O modelo de sociedade que nós temos não se projetou para atender essa demanda.

Educação de qualidade, mais oportunidade, mercado de trabalho mais amplo e com qualidade. A população tem mais aceso aos veículos e as cidades estão insuportáveis. A mobilidade urbana veio para pauta. É importante salientar que esse movimento é essencialmente urbano. Essa juventude tem novas demandas. A presidenta está entendendo isso.

Bahia Recôncavo – Onde o Brasil precisa mudar estruturalmente?

Luiz Alberto – Algumas reformas estruturais precisam ser feitas no Brasil. A mais importante, na minha opinião, é a reforma política. Temos que criar mecanismos de participação popular na política formal. Não se pode eleger o prefeito e a população tem que ter o controle. Não dá para eleger deputados e não ouvir as opiniões dos eleitores. Aumentar a participação de jovens, idosos, mulheres e outros setores.

A outra é a reforma do Judiciário. É o único poder que ninguém controla. Ninguém elege. Eles se sentem como se fossem deuses. É um poder intocável. Um juiz não pode julgar conforme seu humor. É preciso prestar contas à sociedade.

E a reforma tributária. O Brasil está crescendo muito. Para mim o problema não é a carga, mas há uma inversão nesse modelo. Os mais pobres pagam mais do que os mais ricos. A legislação não pode tratar o pequeno empresário da mesma forma que as grandes corporações. É preciso mexer nisso. Debater o imposto progressivo e a taxação das grandes fortunas.

Bahia Recôncavo – As manifestações vividas no Brasil trarão dificuldades a Dilma Rousseff na sua tentativa de reeleição em 2014?

Luiz Alberto – Acredito que não! Porque que no calor da discussão não há uma demanda contra a presidenta Dilma, mas contra todos os poderes constituídos. Um exemplo: o sistema legal brasileiro permite a impunidade. O juiz não pode acabar com a impunidade por vontade dele. É o sistema que permite. A sociedade olha isso e se revolta contra tudo. Estão questionando os poderes. Muitas demandas dos manifestantes dizem respeito aos prefeitos, outras aos governadores e outras ao poder federal.

Bahia Recôncavo – O senhor acha que o secretário estadual da Casa Civil, Rui Costa, é o favorito para conseguir a indicação do PT e disputar a sucessão do governador Jaques Wagner? O senhor acredita ainda nas chances do secretário de Planejamento José Sérgio Gabrielli?

Luiz Alberto – O que me une a Gabrielli é convivência. Ele foi presidente da Petrobras e eu sou petroleiro. Ele fez uma gestão magnífica à frente da Petrobras e deu um up grade. Temos quatro bons nomes. Eu acho que o PT tem a tradição de debater. Criamos um sistema de disputa para eleger a direção do partido e, caso não consigamos chegar ao consenso, temos a prévia. Isso é extremamente democrático.

Queremos construir um consenso para chegar a um nome de forma progressiva. Eu acho que José Sérgio tem características que podem ajudar. Tem trânsito entre o setor médio da população, com os empresários, teve experiência de ser candidato a governador. Rui Costa tem uma história ao lado de Wagner. Mas eu acho que antecipou muito o debate da sucessão, mas tem quatro nomes.

O PT precisou antecipar porque existia um movimento para criar entrevero entre Lula e Dilma. Lula declarou logo que a candidata era ela e isso antecipou também as disputas nos estados. Mas acredito que o PT chegará a um nome porque tem quatro bons nomes. Esse diálogo não é só com o PT, mas temos que combinar com os aliados.

Caso Eduardo Campos (PSB) saia candidato, é evidente que na Bahia terá mudanças por causa da candidatura de Lídice da Mata (PSB).

Bahia Recôncavo – O senhor é do Recôncavo e na região dois ex-prefeitos mostram interesse em disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa em 2014. Orlandinho e Sílvio Ataliba. Como estão esses debates no partido?

Luiz Alberto – Existem dois cenários. Caso pensemos em fortalecer o partido, as duas candidaturas ajudariam. Cada um tem sua base social específica, que circula no Recôncavo. Isso ajudaria o partido a ter mais votos. É uma estratégia inclusive para pensar em 2016. O outro cenário é ter um candidato e eleger. Eu acho que possuir duas candidaturas dificulta (a eleição de um dos dois). Para ganhar a eleição, talvez precise ter candidatura única. Tem que garimpar votos em outras cidades. São dois grandes quadros, cada um com suas características, e acho que o PT começou a discutir. O PT do Recôncavo tem a característica de debater. Está cedo. Vamos começar a debater.

Bahia Recôncavo – O senhor será candidato a reeleição em 2014?

Luiz Alberto – Sim! O nosso mandato tem contribuído muito pela Bahia e pelo Recôncavo, minha região. Em 2002, na primeira eleição (vencida) de Lula eu disse que nós iríamos resgatar o Recôncavo para ter a importância política, cultural e econômica de antes. E eu tive um papel nesse processo. Eu fui relator, pela Comissão de Constituição e Justiça, da implantação da UFRB aqui, participei de todas as audiências públicas e tive papel importante no debate da indústria naval em Maragojipe. Acredito que nosso mandato correspondeu à expectativa.

Bahia Recôncavo – Em que pé está a obra do asfaltamento da estrada que liga Cruz das Almas a Maragojipe?

Luiz Alberto – Essa obra teve um problema de burocracia. Quando foi feito o convênio com a Petrobras e os municípios, Cruz das Almas e Maragojipe tiveram dificuldade de cumprir suas contrapartidas. Depois se descobriu que a estrada é estadual, e não poderia fazer convênio com os municípios, mas com o governo estadual para executar a obra.

Eu conversei com Otto Alencar e a Petrobras está providenciando outro convênio, desta vez com o DERBA, para o governo estadual executar a obra. Inclusive já começou a trabalhar, porque o estado pagou R$ 1,3 milhão nos deslocamentos dos postes. Otto já se comprometeu a pagar as indenizações necessárias onde a estrada cortará. Acho que ainda vai demorar um pouquinho por causa da burocracia, mas a estrada vai sair.

Bahia Recôncavo – qual será o impacto do Estaleiro do Paraguaçu para o Recôncavo?

Luiz Alberto – Inicialmente R$ 4,5 bilhões. Está previsto também a construção de navios petroleiros e de outra natureza. O impacto, do ponto de vista de emprego, é muito grande. Há um esforço para se priorizar a mão de obra local. Estamos através do Prominp e da escola profissional, instalada em Maragojipe, para qualificar a mão de obra local.

Eu tive uma conversa com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e ele já sinalizou favorável para a instalação de um instituto federal de ensino profissionalizante lá em Maragojipe, e uma unidade da UFRB também.

É claro que teremos impactos sociais e ambientais. Mas há compromissos dos governos e do consórcio para diminuirmos os impactos negativos. Mas sem dúvida nenhuma os impactos positivos são enormes.

Reportagem: Maurício Medeiros

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