Pelo segundo ano consecutivo, o São João não vai poder ser comemorado, por conta da pandemia do novo coronavírus. Ao todo, de 18 cidades com tradição nos festejos juninos procuradas pelo CORREIO, as perdas para a economia baiana são de mais de R$ 133 milhões. Mas, segundo o Observatório da Economia Criativa da Bahia (OBEC-BA), com base no cálculo das prefeituras do estado, estima-se que quase R$ 1 bilhão deixe de circular na Bahia sem as festas de São João.
Na avaliação do publicitário Gabriel Carvalho, criador do site São João na Bahia e especialista nesse festejo popular, há uma ‘democratização’ nos lucros das festas juninas. “É uma celebração onde todo mundo ganha. Estima-se que a movimentação financeira chegue próximo a R$ 1 bilhão na Bahia. Isso sem contar nos milhares de empregos gerados que a gente nem consegue contabilizar direito, pois envolve desde o comércio ao vendedor ambulante, passando pelas pequenas industrias, os artistas e a economia criativa”, explica.
Só em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), são mais de R$ 60 milhões que o município deixará de ganhar. No Recôncavo, na cidade de Cruz das Almas, são mais de R$ 30 milhões perdidos. Já em Santo Antônio de Jesus, segundo estimativas do setor, a festa na cidade costuma movimentar cerca de R$ 10 milhões. Por sua vez, em Amargosa, no Vale do Jiquiriçá, em torno de R$ 20 milhões não vão circular na cidade em 2021 por causa da pandemia.
Na Bahia, em condições normais, a festa de São João acontece em mais de 300 municípios. São mais de 2 milhões de baianos circulando no próprio estado, sendo que metade disso são pessoas da capital com destino ao interior, de acordo com Gabriel Carvalho.
“Mais um ano sem São João dói muito em quem gosta e participa. E dói, principalmente, no bolso. O São João representa renda para aqueles que plantam, se apresentam no palco, vão vender sua cerveja e, também, para toda a economia do estado, de uma forma geral”, argumenta.
Tão apaixonado por São João, o próprio Gabriel Carvalho tem o costume de, desde os 16 anos, viajar para alguma cidade da Bahia no mês de junho, alternando entre Santo Antônio de Jesus, Amargosa, Ibicuí e Cruz das Almas. Ano passado, por causa da pandemia, foi a primeira vez, desde então, que ele ficou na capital. Em 2021, a programação terá que ser repetida. “O arrasta-pé vai ser aqui em casa mesmo, cumprindo o isolamento social e com comidas típicas”, disse.
Grandes cidades lamentam falta dos festejos juninos
Em Camaçari, cidade baiana que estima ter o maior prejuízo com a não-realização das festas juninas, o cálculo da prefeitura é feito com base na movimentação do comércio, da rede hoteleira, turismo, ambulantes, barraqueiros, logística de transporte e outros setores. Dos cofres municipais, o investimento era de R$ 8 milhões, se levar em conta todo o mês de junho. O retorno vinha em quase oito vezes mais: R$ 60 milhões.
Na cidade, as celebrações começam no dia de Santo Antônio, 13 de junho. Mas a grande festa mesmo era o Camaforró, entre 21 a 23 do mesmo mês. Em 2019, ela reuniu mais de 60 mil pessoas por dia. Ao todo, foram 50 shows divididos entre os três palcos. Mais da metade dos artistas eram da localidade, mas a última edição também teve Calcinha Preta, Simone e Simaria, Lambasaia e Magníficos.
No Recôncavo, Cruz das Almas chega ao segundo ano sem São João com muito a lamentar. Por lá, mesmo antes da emancipação da cidade, em 1896, a tradição junina já existia. Na época, o local era apenas um distrito do município de São Félix. As festas eram realizadas nas famílias e entre a comunidade – inclusive, com a tradicional guerra de espadas, hoje proibida.
“Estima-se que o São João movimente cerca de R$ 30 milhões na economia local, incluindo os comércios tradicionais e ambulantes. Com o grande número de turistas na cidade, há um aquecimento das compras no período junino”, explica o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico da cidade, Euricles Neto.
Em condições normais, o ‘arraiá’ de Cruz das Almas atrai milhares de turistas durante quatro dias do mês de junho. Trata-se de um grande festival de música popular, com destaque para bandas de forró e outros ritmos nordestinos. Este ano, para não causar um sentimento de normalidade na população, a prefeitura optou por não decorar a cidade. Mesmo assim, a gestão municipal promete desenvolver algum projeto para manter viva a tradição nesse contexto.
Em Amargosa, palco do show virou ponto de vacinação
Se é para celebrar o São João em 2021, que seja com muita vacina! Isso, pelo menos, é o que parece estar acontecendo em Amargosa. Por lá, na praça que costuma receber os shows responsáveis por lotar a cidade, o palco deu espaço a um drive-thru de vacinação contra a covid-19. É a esperança de que, em 2022, tudo vai voltar ao normal.
“Dá um aperto no coração de todos nós que gostamos de São João. Particularmente, é a festa que eu mais gosto de realizar e participar, e tenho certeza de que é a preferência da população baiana e do Nordeste inteiro. Deixo um recado para que sigamos firmes, tomando todos os cuidados, para terminar este ano livre da pandemia e, em 2022, voltar à normalidade. Amargosa vai realizar o maior e melhor São João de todos os tempos, aquele com um gosto de saudade e reencontro”, promete o prefeito da cidade, Júlio Pinheiro (PT).
Segundo o gestor, no São João, a cidade que tem 37 mil habitantes dobra a sua população com a quantidade de visitantes. “Esse público ainda é ampliado por conta das pessoas de cidades circunvizinhas que vêm apenas à noite para conferir as principais atrações. A gente acredita que o público é, mais ou menos, esse: de 40 ou 50 mil pessoas”, explica.
Santo Antônio de Jesus aposta em lives e decoração da cidade durante a pandemia
Se para fazer São João tem que se reinventar, a cidade de Santo Antonio de Jesus decidiu assumir isso na prática. Em 2021, saem os grandes shows e aglomerações e entram as lives e distanciamento social. Tudo isso para manter a curtição típica do período viva no município. “É uma forma de valorizar os nossos artistas. As pessoas estão participando, contribuindo. Essa é a esperança de que esse período triste vai passar”, diz a secretária de Cultura Silvia Brito.
Lá, a festa virtual começou no dia 29 de maio, aniversário do município, que foi marcada por uma live de forró com artistas locais e, no último sábado (5), um concurso de música escolheu a melhor canção junina do ano com o tema “Plantando esperança para colher alegria em SAJ, o Melhor São João da Bahia”. Foram inscritas 24 canções inéditas, todas compostas por artistas locais. Desses, 10 foram selecionados para a grande final e os vencedores receberam os prêmios de R$ 5 mil reais para o primeiro colocado, R$ 2,5 mil para o segundo e R$ 1 mil para o terceiro colocado.
A equipe da prefeitura também está preparando uma grande live na véspera do São João para aquecer os corações dos que gostam da festa. O conjunto de iniciativas promete animar os forrozeiros de plantão que este ano não poderão dançar agarradinhos, mas terão a oportunidade de admirar apresentações e ouvir forró.
“A gente tem total expectativa de fazer uma das maiores festas da Bahia em 2022. Já estávamos nos consolidando no cenário nacional e a intenção é ter uma festa a altura”, promete a secretária de cultura.
Em Mata de São João, arrecadação de ISS caiu 75% em junho
Na Região Metropolitana de Salvador, em Mata de São João, as perdas também foram grandes, apesar de não existirem números concretos. A arrecadação de Imposto Sobre Serviço (ISS) do município, que incluem os bares, restaurantes, hotéis e pousadas, teve uma redução de 75% em junho de 2020 comparado a junho de 2019. Antes da pandemia, a cidade arrecadou mais de R$ 3,7 milhões com ISS, contra R$ 963 mil no ano passado.
A prefeitura pontua, no entanto, que, neste período de 2020, somente os serviços essenciais – mercados e farmácia – estavam abertos, e que os ambulantes não conseguem ser contabilizados, por não pagarem esse tipo de imposto. Segundo a gestão, portanto, as perdas são muito maiores.
Em Ibicuí, no Centro Sul da Bahia, os prejuízos são na ordem de R$ 5 milhões. “A população como um todo sofre sem os festejos juninos. O São João é tradição em Ibicuí e faz parte da história de muita gente. Financeiramente falando, as pessoas que trabalham com eventos, músicos, equipes de produção e montagem, comerciantes em geral, prestadores de serviços e corretores ou pessoas que alugam suas casas para o período festivo são os que mais sentem. É um serviço que deixa de acontecer e, portanto, um dinheiro que deixa de entrar pra cada uma dessas pessoas”, revela a prefeitura. Mais do a perda financeira, existe o prejuízo sentimental.
“Maior que o prejuízo financeiro, existe um prejuízo sentimental, já que todos os ibicuienses sentem uma imensa falta deste momento único O São João é o mais importante festejo para o nosso ciclo cultural, e isso desde muito tempo. Ibicuí vive profundamente a época”, acrescenta.
Por isso, pular fogueira só ano que vem, se o cenário pandêmico for viável. “O que precisamos agora é resguardar vidas, e a não comemoração do São João. Ano que vem, pensando na possibilidade de todos já estarem vacinados, faremos, com certeza, o melhor São João. Aí, sim, vamos matar a saudade acumulada nesses dois anos”, explica.
Retorno financeiro é fruto do investimento municipal nas festas
No Sul da Bahia, em Ipiaú, são cerca de R$ 400 a 500 mil que a prefeitura deixa de injetar na economia da cidade. Lá não é exatamente o São João que é comemorado, e sim o São Pedro, no dia 29 de junho. Nos três dias de festas públicas, mais de 35 mil pessoas frequentam o município, sem contar com os habitantes, que são 45 mil.
O diretor de cultura disse que nunca fez um levantamento de quanto seria o retorno financeiro a partir do investimento da prefeitura. Mas sabe que é maior que os R$ 500 mil investidos.
“A gente nunca fez um estudo de quanto o São João movimenta na cidade, mas a gente percebe que o comércio vende muito, fica muito aquecido. Nos dias seguintes, muitas pessoas vão fazer depósito nos bancos ou pagam boletos, então agente percebe o impacto por aí”, comenta o diretor de cultura da secretaria de educação e cultura de Ipiaú, Marcelo Batista.
Na última edição da festa de São Pedro, artistas como Saia Rodada e Marília Mendonça estiveram no palco. Não existem ainda festas privadas na cidade. De acordo com diretor, os ambulantes são os mais impactados com a impossibilidade da realização dos festejos juninos. “É toda uma rede, mas os ambulantes, que vivem da festa, para vender sua cerveja, seu churrasco, hoje estão impedidos pelo combate ao vírus”, acredita.
Fonte: Correio 24 horas





