EXCLUSIVO: Bahia Recôncavo entrevista Pablo Rezende
Questionamos o parlamentar sobre a atuação dele na Câmara e sobre os embates políticos com o prefeito de Cruz das Almas.

Já era tarde do dia 14 de julho quando o vereador Pablo Rezende (PT) recebeu o Bahia Recôncavo para uma entrevista. Pontualmente, Pablo já estava à espera da conversa que teríamos no seu gabinete, na Câmara de Vereadores de Cruz das Almas.
O local reflete a personalidade política e religiosa do edil, com fotografias de Lula e de eventos do Partido dos Trabalhadores, bem como presença de uma imagem de Santa Dulce dos Pobres. Fotos da família compõem a mesa simples do vereador.
Pablo Rezende, que tem 32 anos, e dispensa ser chamado de senhor, começou a trajetória política ainda durante a fase adolescente, no Colégio Estadual Luciano Passos em agremiações estudantis, influenciado pela luta política do seu avô e tio, que tentaram, em décadas passadas, eleições à Câmara de Vereadores do município. Em seguida, tornou-se militante estudantil na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), ao mesmo tempo em que assumia cargos na Igreja Católica.
Posteriormente, foi convidado a assumir a secretaria de Políticas Especiais na gestão de Orlandinho, em 2017, e venceu as eleições seguintes, em 2020, para vereador com 662 votos.

Já no início da entrevista, afirmou que a escolha pelo PT (Partido dos Trabalhadores) se dá pelo motivo do partido se aproximar dos seus anseios políticos em favor das minorias, ancestralidade, respeito a diversidade e juventude.
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Leonardo Gonçalves (entrevistador Bahia Recôncavo): Como se dá essa relação de ser militante do PT, de viés progressista, e ser atuante na Igreja Católica, de viés conservador?
Pablo Rezende: Na minha graduação, durante o curso de História, eu fiz meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a esquerda católica, que é um movimento dentro da Igreja Católica chamada de Teologia da Libertação, que é um movimento teológico, mas também político, que nos orienta teologicamente e para a minha caminhada cristã. A gente (Pablo e Pedro Melo – vereadores do Partido dos Trabalhadores-) procurou o PT por entender que era um partido que surgiu das bases das igrejas católicas. Na mesma época em que surge o PT, surgem a Pastoral da Terra, o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST)…são períodos próximos. Por influência dessa linha teológica e a classe trabalhadora minimamente organizada. […] Não comparando, mas dizendo que estando aqui hoje como vereador, da liderança que a gente representa, que sai dessa base da igreja católica, nós somos o reflexo, a tomada de consciência por parte dos jovens católicos que têm essa aproximação com a Igreja Católica.
Leonardo Gonçalves: No próximo dia 3 de outubro você completará 32 anos, sendo, portanto, o vereador mais novo. Quais são os benefícios e os malefícios da sua juventude na Câmara de Vereadores de Cruz das Almas?
Pablo Rezende: Ocupar uma cadeira na condição de jovem no parlamento, sobretudo numa cidade do interior da Bahia, representa muito, porque a gente sempre teve a ocupação de jovens. O atual presidente da Câmara de Vereadores, Thiago Chagas (PSD), já foi o mais jovem vereador na legislatura passada. Já tivemos outras experiências de jovens também. A cada período, a cada tempo que a gente tem um jovem ocupando uma cadeira, a gente consegue avançar nas políticas. Eu sempre digo que quando a gente tem um jovem, quando a gente tem uma mulher ou um negro ocupando esses espaços de representação e poder, a gente consegue avançar em espaços importantes na sociedade. Como por exemplo, a gente está em pauta aqui, o Estatuto da Juventude, o Estatuto da Igualdade Racial, que são de autoria de vereadores jovens. Na condição de jovem, acho que esse é um benefício, enfrentar pautas importantes que talvez, aqueles que já têm caminhada/determinada experiência, têm receio em tocar.
A parte negativa, acho, que quando a gente chega no primeiro momento ao parlamento, a inexperiência do parlamento, a gente precisa se adaptar rápido e isso eu acho que consegui fazer em um ano e meio de mandato.
Leonardo Gonçalves: Você já passou por alguma tentativa de deslegitimação de seus posicionamentos políticos por conta da sua pouca idade?
Pablo Rezende: Já aconteceu várias vezes, inclusive. Quando tem uma matéria para ser debatida de autoria de qualquer vereador ou do Executivo, eu busco estudar para tentar defender o meu posicionamento. Então, eu espero que os colegas vereadores tragam seus posicionamentos para a gente sair dali com a forma mais democrática de escolher a solução para aquele determinado problema. Só que quando um colega vereador chega para a gente e fala assim “você é um menino, você é criança”, como já ouvi algumas vezes, isso mostra que o colega vereador que tem um posicionamento diferente do seu não tem argumento e quer, de forma preconceituosa, tornar você menor. Então isso já aconteceu algumas vezes. Nesse mandato, na Câmara de Vereadores a gente enfrenta isso.
Leonardo Gonçalves: A sua atuação tem sido bastante combativa ao governo de Ednaldo Ribeiro, inclusive, você até chama a gestão de Governo dos Ribeiros. Você se considera uma voz de liderança dentro da bancada de oposição?
Pablo Rezende: Os meus companheiros me elegeram vice-líder. Não tem segredo, a população sabe quando me elegeu que eu tenho lado na política, eu não estou em cima do muro, eu não tenho que ficar agradando o prefeito para manter meu mandato vivo. O meu mandato é vivo porque as pessoas me escolheram para ser vereador da oposição. Não é oposição à cidade, mas ao projeto político que ele lidera. E deixar claro, nosso papel aqui é fiscalizar o trabalho dele. Se ele errar na administração vamos estar atentos. […] Eu sou vereador de oposição, com responsabilidade, diferente do que enfrentamos quando a gente governou Cruz das Almas. Vereadores de oposição que agiam de forma irresponsável com a cidade.
Leonardo Gonçalves: Em um vídeo que circulou bastante nas redes sociais há dois meses, Ednaldo Ribeiro acusou vereadores da oposição durante a entrega de obras em uma unidade escolar do município. Na sua opinião, essa fala de Ednaldo pode levar a episódios de violência?
Pablo Rezende: Eu já fiz pronunciamentos nas sessões falando exatamente sobre isso. Mostrei que o bolsonarismo no Brasil tem incitado o ódio contra a oposição, sobretudo contra o PT. E falei diversos episódios, desde a morte de Marielle em março de 2018 até o assassinato de Marcelo Arruda, tesoureiro do PT, em 2022, em Foz do Iguaçu. O assassinato de Marcelo aconteceu no dia 10 de julho e, neste mesmo dia, o prefeito comete um erro -prefiro chamar de erro- ao incitar o ódio contra os opositores. Pedir que a população coloque o dedo na cara dos vereadores que são legitimamente eleitos do jeito que ele é… acusando a gente de roubo sem provas. Eu, inclusive, disse na tribuna que ele deveria ter provas porque não se faz esse tipo de acusação sem provas. Pelo contrário, ele hoje é investigado pelo crime de improbidade administrativa, junto ao genro, por conta do relatório final da CPI da Saúde de Cruz das Almas.
Leonardo Gonçalves: Fora da política, você tem alguma divergência com Ednaldo?
Pablo Rezende: Nenhuma, inclusive, já deixei isso claro em entrevistas de que ele não é meu inimigo, a gente só tem divergência nos projetos políticos apresentados para a cidade.
Leonardo Gonçalves: Qual é o legado que você pretende deixar para a política local?
Pablo Rezende: Nós estamos produzindo um documento que divulgue as ações do mandato, como por exemplo quando garantimos a extensão a 100% da rede elétrica nas comunidades quilombolas de Cruz das Almas (Vila Guaxinim e Baixa da Linha), extensão da rede de água da Tapera, equipamentos da agricultura familiar, tratores, kit irrigação, barracas para agricultura familiar, camas hospitalares, dentre outros. O nosso mandato busca deixar um legado efetivo com destaque nas áreas de educação e cultura.





