Eu tenho muita dificuldade de lidar com a morte. Sei que todos que vivem devem ter, mas muitos administram melhor que eu. E à medida que vamos envelhecendo, vamos acumulando perdas. E isso dói muito, especialmente quando também vamos ficando mais racionais e perdendo crenças que em alguns momentos da vida eram certezas. Hoje quero falar sobre ANTÔNIO CÍCERO, o poeta da Academia Brasileira de Letras, que nos deixou por esses dias, aos 79 anos, destacando a opção dele pela morte, a escolha do momento de morrer, enquanto tinha escolha. Que sujeito evoluído o Antônio Cícero, irmão da excepcional cantora Marina Lima.
Ele recebeu, há algum tempo, o diagnóstico irreversível de Alzheimer, e ali mesmo decidiu, enquanto tivesse memória, encerrar a vida. Não queria que acontecesse com ele o que aconteceu, para citar um exemplo, com o Gabriel Garcia Marques, que em seus últimos dias de vida, já não se sabia autor de “Cem Anos de Solidão”. A sociedade cristã e cristianizada, altera/interfere em tudo no fluxo da natureza, no ciclo das espécies, mas defende que em relação à vida humana, é preciso seguir o fluxo natural, embora comemore a morte de meninas e meninos pretos e pobres, jamais assistidos pelo Estado, a não ser por suas polícias para promoverem suas mortes antecipadas. Nesse Congresso, puxadinho de igrejas, que temos no Brasil, jamais sequer se discutirá a EUTANÁSIA, e isso é muito lamentável.
É mais uma imposição cristã a uma sociedade laica, mas cristianizada. Enfim, o ANTÔNIO CÍCERO, diferente da maioria de nossa população, tinha recursos para pensar em eutanásia na Suíça, país desprovido dessa interferência doentia cristã na vida da sociedade não cristã. O trâmite não é tão simples e vai além da grana. Ele precisou fazer parte de uma associação voltada para estrangeiros que querem o direito de fazer a eutanásia lá. O governo suíço não consulta o país de origem do candidato em relação a sua escolha.
O nosso poeta, resolvido todo o trâmite burocrático chegou onde precisava chegar e se candidatou. São muitos laudos exigidos de diversos especialistas para garantir que o quadro é mesmo irreversível, coisas absolutamente inacessíveis a uma pessoa empobrecida. Antônio Cícero não admitia viver sem saber quem ele era, mesmo que as pessoas o soubessem Antônio Cícero. Manteve seu desejo em absoluto segredo. Compartilhou exclusivamente com o marido. Nem com a irmã nem com mais ninguém. E o marido respeitou a decisão e guardou o segredo. Viajaram para Paris. O Antônio queria rever a cidade que ele amava, ainda com memória dos lugares. Curtiu com o seu amor cada local da cidade. Depois seguiram para a Suíça e juntinhos, de mãozinhas dadas, o Antônio Partiu, numa desconexão que não durou meia hora de sono, sem sofrimentos, sem dores, apenas uma despedida. Na véspera, somente na véspera, o Antônio ligou para a Marina e disse o que ia acontecer no dia seguinte. Ela sofreu, entendeu, respeitou. Isso é muito legal.
Antônio Cícero não admitia viver com o apagão de suas memórias, de sua própria identidade. Eu não estou defendendo aqui a morte de todos os portadores de Alzheimer, antes que algum perverso desprovido da unção da interpretação de texto me apareça aqui para insinuar isso. Eu estou defendendo o direito de cada pessoa, independente da doença irreversível que tenha e independente de sua situação financeira, ter acesso à eutanásia, SE QUISER. E não me venham chamar de SUICÍDIO ASSISTIDO só para desqualificar o procedimento. É um procedimento médico de encerramento de uma vida que logo entrará em estado vegetativo, mas que não pode ser discutido porque a IGREJA (católica e protestante), auto-declarada representante do Deus todo-poderoso que não sabe evitar o Alzheimer nem as outras doenças degenerativas, quer.
A igreja poderia continuar orientando os seus fiéis e os seus infiéis a não fazerem a eutanásia; isso seria legítimo. Mas é pouco para uma instituição que, na Idade Média, teve tanto poder. Ela quer continuar definindo destinos da humanidade toda, e não apenas da parte que escolheu acreditar no que ela definiu como verdade. E esse mesmo comportamento foi adotado pelas filhas rebeldes protestantes da Santa Madre Igreja que durante séculos, MATAVA por prazer, poder e psicopatia. Enfim, que cara fantástico e evoluído o Antônio Cícero! Foi para a Suíça, numa viagem de despedida, com passagem por Paris, ainda com várias memórias, e voltou cinzas numa urna mortuária, nas mãos do marido. Isso se chama EVOLUÇÃO, direito de escolher quando se encerra o próprio sofrimento cujo agravamento irreversível, que pode durar anos, está logo ali.
E convenhamos: se essa escolha do tempo de recolhimento é uma decisão do Deus, esse Deus é muito perverso, quando consideramos o estado e o tempo que pessoas levam para morrer, com dores, sem memórias, sem movimentos básicos, mal respirando. Com os recursos do Antônio Cícero e diante do seu quadro, eu faria o mesmo. Mas gostaria que isso pudesse acontecer no meu próprio país, que embora se declare laico, não passa de um lamentável puxadinho de igreja (católica e evangélica).
Autor do texto: Isac de Moura – professor de literatura.





