Bahia concentra maior parcela de feminicídios do Nordeste, aponta pesquisa
Em Cruz das Almas, 267 medidas protetivas estão ativas e reforçam a rede de apoio às vítimas de violência
Fernanda Amordivino
A Bahia responde por 25,8% dos casos de feminicídio registrados no Nordeste entre 2021 e 2025, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Apenas em 2025, o Brasil contabilizou 1.568 vítimas desse tipo de crime.
Desde que o feminicídio foi incluído no Código Penal, com a sanção da Lei nº 13.104 em março de 2015, quase 14 mil mulheres foram assassinadas em casos desse tipo no país. No entanto, o estudo ressalta que os números podem ser maiores do que os registros oficiais conseguem registrar.

O feminicídio ocorre quando uma mulher é assassinada por razões relacionadas ao gênero, como em casos de violência doméstica, familiar ou situações de discriminação e menosprezo. O levantamento indica que a maior parte desses crimes é cometida por parceiros íntimos das vítimas.
Segundo a mestra e doutora em Sociologia e presidenta do Coletivo de Mulheres em Luta Jacinta Passos, de Cruz das Almas, Graça Sena, os números de feminicídio também refletem o avanço de discursos misóginos no país, impulsionados pela dinâmica das redes sociais. “Movimentos como incels e red pills têm atraído cada vez mais jovens. Influenciadores disseminam uma verdadeira cruzada contra o movimento feminista que, segundo eles, está tomando o espaço dos homens e reduzindo o seu poder”, explica.

O termo “incel” é usado por homens que afirmam não conseguir estabelecer relações afetivas ou sexuais e que, em alguns casos, passam a difundir discursos de ódio contra mulheres. Já os chamados “red pills” possuem críticas ao feminismo e à igualdade de gênero.
Mulheres negras são maioria entre vítimas de feminicídio
Outro dado que chama atenção no levantamento é o recorte racial. Entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio no Brasil eram mulheres negras. Para a socióloga Graça Sena, esse cenário está relacionado às desigualdades históricas que marcam a sociedade brasileira.
“As mulheres negras são as que se encontram em maior vulnerabilidade social. A objetificação dos corpos negros ainda é uma realidade nos dias de hoje, e ser alvo das violências é visto como natural”, afirma.
De acordo com a educadora e integrante do Coletivo Feminista, Ilza Cruz, raça e gênero estão diretamente ligados nesse cenário. “A violência tem cor. Muitas vezes, nós, mulheres negras, somos hipersexualizadas e vistas como menos merecedoras de proteção, o que reforça situações de exploração e vulnerabilidade”, pontua.

Para ela, o enfraquecimento de políticas públicas também têm contribuído para agravar o cenário. “Passamos por um período de fragilização das redes de proteção. Além disso, há a normalização da violência, da cultura do estupro e a banalização da agressão contra as mulheres. Tudo isso perpetua esse ciclo”, explica.
Nesse sentido, Ilza defende que o enfrentamento da violência exige mobilização social e campanhas permanentes de conscientização. “Precisamos responsabilizar os agressores e promover uma mudança cultural profunda, capaz de subverter estruturas patriarcais que ainda sustentam esse problema”, conclui.
Leia também: Julgamento sobre feminicídio de jovem quilombola em Cachoeira é adiado pela terceira vez seguida
Rede de apoio às vítimas de violência em Cruz das Almas
“Hoje temos 267 medidas protetivas ativas na cidade. Isso significa que 267 homens estão afastados do convívio com essas mulheres por decisão judicial”, afirma a gestora da Secretaria de Políticas Especiais, Nádia Moura.
Segundo ela, o município também já registrou casos graves de violência de gênero. “Temos o histórico de um feminicídio consumado e um feminicídio tentado. Para algumas pessoas pode parecer pouco, mas, considerando que nossa população tem 65 mil habitantes, é algo alarmante”, destaca.

A secretária ressalta ainda que muitos casos de violência doméstica não se tornam visíveis para a sociedade. Isso ocorre porque, por determinação da lei, processos desse tipo devem correr em segredo de Justiça, o que faz com que parte das ocorrências não tenha divulgação.
Diante desse cenário, a rede de apoio às mulheres em situação de violência tem papel fundamental no acolhimento e na orientação das vítimas. Em Cruz das Almas, esse atendimento é realizado por meio do Centro de Referência e Atendimento à Mulher (CRAM).
“Nós temos uma equipe multidisciplinar com psicólogo, assistente social e assistente jurídico. Essa rede de apoio agirá, inclusive, levando a vítima de violência até a delegacia para cuidar dos procedimentos posteriores à medida protetiva”, explica.

Por fim, a secretária também reforça a importância de que mulheres em situação de violência busquem apoio e reconheçam os sinais de um relacionamento abusivo, já que o feminicídio representa o estágio mais extremo do ciclo de violência.
“É fundamental que a mulher se conscientize quando está em um relacionamento violento e procure ajuda antes que a situação se agrave. Muitas acreditam que o companheiro não teria coragem de ir além, mas os dados mostram que eles têm, sim”, alerta.
Como buscar ajuda
Mulheres que enfrentam situações de violência doméstica podem buscar apoio pelo Ligue 180, central de atendimento do governo federal que funciona 24 horas por dia, de forma gratuita e anônima.
Em Cruz das Almas, o atendimento pode ser feito pessoalmente no CRAM, em frente ao CETEP. Informações também estão disponíveis pelo telefone 0800-750-0140 ou pelo WhatsApp (75) 3621-3252.





