
Fernanda Amordivino
“A corrida é tão boa que eu não consigo nem explicar, por isso eu vivo incentivando as pessoas. Eu não tomo remédio pra nada. Olha que privilégio”, diz a aposentada Luciene Santos, integrante do Grupo de Corrida Strong. Ela pratica a atividade há quatro anos e hoje, aos 62, não abre mão.
Assim como Luciene, outros participantes encontram no Strong um espaço de incentivo à prática esportiva. Com aproximadamente 120 integrantes, o grupo se organiza em diferentes dias e níveis de treino no campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
A iniciativa também funciona como uma rede de apoio, em que os próprios participantes se incentivam e evoluem juntos. O projeto é gratuito e aberto ao público.

No grupo, a aposentada diz se sentir ainda mais motivada. “Eu me apaixonei pela corrida. Quando saio para treinar, corro no mínimo 15km. Já ganhei quatro troféus e tenho várias medalhas. Se eu pudesse, participava de todas as provas.”
Nesse contexto, a experiência local dialoga com um movimento mais amplo. A pesquisa Por Dentro do Corre, realizada pela Olympikus em parceria com a Box 1824, aponta que, em 2025, mais de dois milhões de pessoas começaram a correr no Brasil.
Desse total, as mulheres – que antes representavam 42% – agora são 50%, enquanto o Nordeste aparece como a segunda região com maior número de novos praticantes.
Acesse a Pesquisa Por Dentro do Corre (2ª edição)
De acordo com Anderson Vieira, coordenador do grupo e estudante de Educação Física, esse aumento também pode ser observado em Cruz das Almas e está relacionado, principalmente, ao baixo custo do esporte.
“Quando eu vinha para a UFRB, há quatro anos, era uma dúzia de pessoas treinando para competir. Hoje eu brinco que parece que o pessoal está saindo de uma prova do Enem. Tirando um tênis razoável, que você precisa comprar, não há mensalidade”, pontua.

Da iniciativa espontânea ao crescimento
Segundo Anderson, que já treinava corrida individualmente, o grupo começou há quatro anos, após um pedido de ajuda.
“Iniciamos com quatro mulheres, todas acima do peso e que viram na corrida uma oportunidade de mudança. Então, todas as terças, quintas e sábados eu vinha para a UFRB às 5h da manhã, com chuva ou sol, para acompanhar o treino delas. Eu disse que não cobraria nada, mas queria comprometimento”, conta.

Desse modo, em 2023, a ação ganhou força e deu origem ao “Treinão Strong”, que passou a atrair cada vez mais participantes. No entanto, foi há cerca de um ano e meio que o projeto foi ampliado.
“Inicialmente, nossa proposta com o grupo de corrida era reunir apenas corredores experientes, mas a alta procura de iniciantes mudou os planos. Então, nós abraçamos”, afirma.

O surgimento de novos atletas
Paula Beatriz, de 27 anos, afirma que começou a correr após ser convidada para participar dos treinos do grupo e, com o tempo, passou a competir em provas e conquistar pódios.
Com cerca de um ano e meio de prática, ela destaca as mudanças percebidas no corpo e na rotina, como a melhora na disposição e no humor, além do condicionamento físico, da resistência e da postura.
“Quando a gente está correndo, mesmo em um ritmo mais rápido, conseguimos desacelerar. É como se silenciasse o barulho externo e você focasse apenas em si mesmo. Pra mim, essa é a melhor parte”, relata.
Nas competições, ela vê o pódio como consequência de um processo que se constrói nos treinos e na vivência de cada prova. A trajetória na corrida, segundo Paula, pode ser resumida em uma palavra: superação.

Segundo o coordenador do grupo, Anderson Vieira, o surgimento de atletas competitivos foi algo inesperado, já que a proposta inicial era voltada ao bem-estar dos integrantes.
“A gente não começou com a intenção de formar atletas. Só que, com o tempo, fomos percebendo o potencial de algumas pessoas e passamos a estimular. Hoje, temos cerca de oito a 10 atletas em nível de pódio. Em muitas corridas, sempre tem alguém do Strong representando”, destaca.

Atualmente afastada dos treinos por conta de uma lesão, Paula diz que esse período reforçou ainda mais a importância da atividade. “Eu tenho uma rotina puxada. Sou mãe, trabalho fora, e correr é o meu momento. Esse tempo distante só me mostrou o quanto isso faz falta”, destaca.
Entre a maternidade e a corrida
Para muitos participantes, a corrida se encaixa na rotina como um momento de autocuidado. É o caso de Tatiana Gomes, de 41 anos. Mãe de dois filhos e estudante que se dedica à preparação para concursos públicos, ela conta que precisou adaptar a rotina após o nascimento da filha mais nova.
“Antes, eu fazia natação, corrida e musculação. Depois, precisei reorganizar tudo. A corrida foi o que conseguiu se encaixar no meu dia, porque em 30 minutos eu faço 5km”, relata.

Além da própria rotina, ela também inclui o filho Heitor nos treinos, com o objetivo de integrá-lo em atividades ao ar livre. “É um desafio maravilhoso. Eu trago ele para incentivar a atividade física, para tirar um pouco da tela. A gente vai se adaptando, mas o importante é estar junto”, pontua.
Expansão da corrida contrasta com desafios estruturais
Ainda de acordo com os dados da pesquisa Por Dentro do Corre, a corrida é o quarto esporte mais praticado no país e tem se consolidado como uma das principais portas de entrada para a atividade física. Mulheres, jovens e pessoas da classe C estão entre os que mais aderiram à modalidade nos últimos anos.
Diante desse cenário, grupos como o Strong ganham relevância ao ampliar o acesso à prática esportiva e oferecer orientações básicas a quem busca iniciar ou manter uma rotina de exercícios. Além de incentivar a atividade física, iniciativas desse tipo também contribuem para a socialização, o bem-estar e a promoção da saúde.
No entanto, o crescimento da modalidade esbarra em desafios estruturais que dificultam a continuidade e a expansão dessas ações.
“Embora tenha acontecido um crescimento da corrida de rua em Cruz das Almas, ainda sentimos muita falta de apoio do poder público. Temos uma pista atlética no estádio que está abandonada e poderia ser utilizada para treinos, mas até hoje não conseguimos a reforma”, afirma Anderson.

Apesar das limitações estruturais, o grupo segue crescendo e fortalecendo laços entre os participantes. Ao relembrar a trajetória do Strong, Anderson destaca o contraste entre o início simples e a dimensão que o projeto alcançou ao longo dos anos, mantendo como base o objetivo de transformar vidas por meio do esporte.
“Quando eu olho para trás e lembro do começo, com quatro mulheres treinando às 5h da manhã, debaixo de chuva, eu me emociono. Era algo muito simples, mas com um propósito que continua até hoje: ajudar pessoas”, afirma.
Para ele, esse desejo está diretamente ligado à essência do grupo, refletida no próprio nome. “O Strong não é sobre dificuldade, mas sobre a força que cada um tem dentro de si e ainda não descobriu. Estamos aqui para mostrar que todo mundo pode”, conclui.
Interessados em participar do grupo devem comparecer aos treinos e manter uma frequência mínima semanal. Informações sobre dias e horários estão disponíveis no Instagram @grupostrong01.
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