Desigualdade salarial entre brancos e negros persiste na Bahia, aponta pesquisa
Especialista afirma que desigualdades históricas ainda influenciam oportunidades e acesso a cargos de liderança
Fernanda Amordivino
Na Bahia, mulheres negras recebem quase a metade do salário dos homens não negros. É o que aponta o Relatório de Transparência Salarial do primeiro trimestre de 2026, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Enquanto a remuneração média dos homens não negros chegam a R$5.119,82, a das mulheres negras é de R$2.645,93.
Os dados também revelam que as desigualdades salariais entre pessoas brancas e negras no estado chegam a quase R$3 mil. Segundo o relatório, trabalhadores brancos recebem, em média, R$9.109,45, enquanto a remuneração das pessoas negras é de R$5.934,43.
De acordo com a advogada e doutora em Estado e Sociedade, Ceila Sales, esses números são a demonstração do racismo estrutural que atravessa toda a sociedade brasileira, incluindo o mercado de trabalho.
“As discriminações e práticas racistas são naturalizadas. Assim, essa diferença e o acesso a cargos mais elevados são justificados pelo nível escolar e formação curricular, por exemplo. Só que esse discurso da meritocracia é falso”, pontua.

A advogada destaca ainda que as discrepâncias salariais por raça ou gênero violam princípios garantidos pela constituição. No entanto, apesar da existência de leis que garantem igualdade de direitos, o mercado de trabalho brasileiro ainda é marcado por desigualdades históricas.
Raça e gênero ampliam desigualdades no mercado de trabalho
Como aponta a pesquisa, as mulheres negras ocupam a base da pirâmide salarial no estado. Segundo Ceila Sales, isso acontece porque raça, gênero e classe se cruzam em um mesmo processo de exclusão social e econômica.
Esse fenômeno é chamado de interseccionalidade, conceito que explica como diferentes marcadores sociais impactam simultaneamente a vida de determinados grupos. No caso das mulheres negras, raça e gênero acabam ampliando as desigualdades enfrentadas no mercado de trabalho.
“A sociedade brasileira foi forjada nas ideologias racistas e sexistas. Por isso, as mulheres negras experimentam discriminações de raça e gênero, o que faz com elas recebam salários menores em relação ao homem negro e a mulher branca”, destaca a advogada.

Nesse sentido, mesmo com o avanço das políticas de acesso à educação e da ampliação da presença da população negra nas universidades, a especialista ressalta que o mercado de trabalho ainda reproduz desigualdades históricas.
“Pessoas negras, mesmo com formação idêntica a de uma pessoa branca ou até mesmo maior, não recebem os mesmos salários. E nem mesmo conseguem acessar da mesma forma os cargos de direção e liderança. As diferenças de acesso no mercado de trabalho, especialmente no setor privado, permanecem desiguais”, afirma.
Bahia e as heranças históricas do colonialismo
O colonialismo refere-se ao processo de dominação cultural, política e econômica exercida por países europeus sobre diferentes territórios, com o objetivo de explorar recursos naturais e até mesmo humanos.
No Brasil, esse sistema se estruturou a partir da colonização portuguesa, baseada principalmente na exploração do trabalho escravizado de pessoas africanas.
Esse processo deixou marcas profundas no país, e na Bahia não foi diferente. O estado, que abriga uma das maiores populações negras do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda convive com altos índices de discriminação racial, inclusive no mercado de trabalho.
“Desde o período colonial, o racismo estrutural forjou as bases históricas do nosso estado. Então, apesar da abolição formal da escravidão, esse sistema se perpetua até hoje nas estruturas sociais da Bahia. Só que com novas roupagens”, alerta a advogada Ceila Sales.
Segundo ela, essa manutenção das desigualdades aparece de forma sutil em diferentes esferas da sociedade, contribuindo para a permanência de privilégios raciais. Nesse contexto, ganha destaque o chamado “pacto narcísico da branquitude”, desenvolvido pela autora Cida Bento, que ajuda a explicar a concentração de pessoas brancas em posições de poder.
“Esse pacto faz com que as pessoas brancas se unam para manter seus privilégios. Ou seja, elas se valorizam, se contratam e se premiam, discriminando o acesso de pessoas negras aos mesmos cargos”, pontua.
Ceila destaca ainda que o enfrentamento desse cenário depende de ações em diferentes esferas da sociedade, incluindo políticas públicas, fortalecimento de leis antirracistas e medidas de inclusão no mercado de trabalho.
“Só de forma conjunta poderemos enfrentar o racismo estrutural e escrever novas páginas da história brasileira, com uma sociedade efetivamente igualitária e mais justa”, conclui.
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