Reconhecimento da ONU sobre a escravidão exige análise crítica, aponta historiador
Medida reacende debate sobre memória, reparação e desigualdade racial
Fernanda Amordivino
A recente resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), que classifica o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade, representa um avanço simbólico, mas ainda insuficiente, avalia o historiador Jeyel Nascimento.
Para Jeyel, o reconhecimento precisa vir acompanhado de responsabilização dos envolvidos no projeto colonial. “Não dá pra ser inocente e acreditar que isso muda algo de imediato. É preciso haver medidas concretas para, de fato, combater os resquícios simbólicos, políticos e econômicos gerados pelo sequestro e escravização de milhões de pessoas”, afirma.

A proposta foi levada à Assembleia Geral da ONU na semana passada, pelo presidente de Gana, John Dramani Mahama. O documento contou com 123 votos a favor, três contras (Argentina, Estados Unidos e Israel), e 53 abstenções, incluindo Portugal, um dos principais colonizadores do continente africano.
Ao analisar os resultados, o historiador conclui que os votos contrários não geram espanto. Ele também considera a proposição de Gana assertiva, diante do contexto político atual.
“Me parece que o país aproveita um espaço muito sensível para colocar em pauta algo que estamos discutindo há décadas. O posicionamento de Gana aparenta chamar a atenção para o fato de que o que fazem, de certa forma, hoje com Gaza, também foi feito com nossos ancestrais por muito tempo”, destaca.
A ferida aberta causada pela escravidão
“A escravidão moderna é algo que dói até hoje. Reconhecê-la como o maior crime contra a humanidade é não apenas abrir caminhos para reparações, mas também um gesto de solidariedade internacional, com todos os povos oprimidos do mundo”, afirma Jeyel.
Sabe-se que a escravidão no Brasil, último país das Américas a aboli-la, durou quase 400 anos. O país também foi o que mais recebeu africanos escravizados durante o tráfico transatlântico. No sistema escravocrata, o indivíduo perdia todos os seus direitos legais, sendo transformado em propriedade.
Ao chegarem no Brasil, os africanos eram separados de seus grupos e misturados com povos de diferentes culturas, estratégia utilizada para dificultar a comunicação e enfraquecer possíveis formas de resistência. Eles eram utilizados como mão de obra em atividades como as plantações de cana-de-açúcar e algodão.

De acordo com Jeyel, as consequências desse período reverberam até hoje. Ele chama atenção para a realidade social do país. “Quando olhamos as periferias das cidades, os que perdem as casas nas enchentes, quem é a maioria que está lá? E se voltarmos nossos olhos para os altos cargos, os donos de bancos e os políticos, quem ocupa esses espaços em grande escala?”, instiga.
Segundo o historiador, mesmo após o fim da escravidão, mecanismos políticos e econômicos foram reformulados para manter desigualdades.
“As estruturas do sistema escravista se adaptaram ao modelo econômico atual, e a população negra continua, em muitos casos, ocupando lugares de vulnerabilidade, exploração e violência”, conclui.
Importância de manter vivo o debate sobre a escravidão
Na perspectiva de Jeyel, o mais importante agora não é apenas o posicionamento da ONU, mas os desdobramentos concretos dessa discussão. “Não acho sadio superestimar a potência do gesto, mas ele nos dá, sim, bagagem para avançar e continuar naquilo que temos feito todo este tempo: resistir”.
Por fim, ele ressalta que manter esse debate vivo é também preservar a memória dos que vieram antes e se engajar na construção de uma realidade sem miséria.
“A gente precisa chegar na raiz das coisas e entender por que a maioria que sofre é negra. Se isso não são restos apodrecidos do escravismo, eu não sei o que poderia ser”, destaca.
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