BrasilDestaqueEntrevistasNotíciasSaúde

Psicóloga alerta sobre uso excessivo de redes sociais na adolescência

Exposição contínua a estímulos digitais pode afetar atenção e autoestima dos jovens

Fernanda Amordivino

As redes sociais fazem parte do cotidiano de muitas pessoas. Pode-se dizer que a sociedade atual vive hiperconectada. No entanto, o excesso de informações e a exposição contínua aos estímulos do mundo digital podem causar impactos na saúde mental de muita gente, especialmente na dos adolescentes, afirma a psicóloga Rebeca Ramos.

“Esses estímulos são apresentados com a intenção de manter o usuário por mais tempo na tela. Quando o adolescente usa as plataformas digitais de forma excessiva, pode desenvolver maior dispersão, impulsividade e intolerância ao tédio e à monotonia, além de prejuízos na capacidade de planejamento”, explica.

Rebeca acompanha adolescentes há 10 anos na prática clínica e atua com Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Terapia do Esquema – Foto: Arquivo pessoal

Em contrapartida, para os adolescentes, acessar as redes sociais de forma contínua já virou normalidade. “Como que eu vou viver sem um vídeo do Tiktok pra me distrair? Eu uso o Instagram o dia inteiro. A qualquer hora vou abrir os aplicativos, pois são a minha distração e viraram parte da minha rotina”, afirma Noemí Vitória, de 16 anos. 

Segundo Noemí, por ter acesso aos conteúdos que gosta em sua timeline, fica mais difícil se desconectar. “Eu vejo aquilo que desejo e idealizo. Então fico muito tempo rolando os vídeos e me perco no horário”.

Nesse sentido, Rebeca afirma que estabelecer limites no uso das redes sociais é difícil para a maioria das pessoas, sendo mais complexo para os jovens. “Os adultos também encontram dificuldades, é só olhar para o tempo que eles ficam no celular. Porém, para os adolescentes é mais complicado, porque eles ainda estão desenvolvendo algumas funções cognitivas que ajudam a estabelecer mais autocontrole”.

Reduzir o tempo no ambiente digital pode impactar a sensação de pertencimento entre adolescentes – Foto: Pexels

Redes sociais, autoestima e comparação

“Eu  me comparo a ponto de querer ser e ter aquilo que estou vendo. Tipo, eu idealizei um padrão de beleza na minha cabeça, e quando vejo alguém que tem o que eu gostaria, isso acaba afetando a forma como me vejo”, relata Maria Flor, também de 16 anos.

De acordo com Flor, esse pensamento é mais voltado para a estética e atinge, principalmente, sua percepção sobre o cabelo. “Um cabelo liso ou um cacheado sem frizz são bem aceitos, as pessoas elogiam demais. Então eu não amadureci essa ideia de que preciso aceitar o meu natural. Eu realmente acho que não consigo mudar esse pensamento”. 

Na perspectiva da psicóloga, as redes sociais aumentaram expressivamente a forma como os adolescentes constroem suas referências e identidade, com desejos cada vez mais distantes de acessar. 

“Antes, as nossas referências e elementos de comparação estavam mais circunscritos a nossa comunidade e cultura local. No mundo digital, as referências do que é belo e aceitável se expandem bruscamente. Quando os adolescentes não conseguem se enquadrar nessas percepções, com frequência desenvolvem noções de insuficiência e culpa”, pontua Rebeca.

Padrões de beleza e estilos de vida inacessíveis são construídos a partir de recortes para gerar engajamento – Foto: Pexels

Na adolescência, a necessidade de aceitação e pertencimento são muito grandes, por isso, diversos dilemas internos são aflorados com o uso constante das plataformas digitais. 

“Redes sociais são SOCIAIS! Elas definitivamente não promovem apenas distrações, como também mexem com bases cognitivas, emocionais, sociais e identitárias. O processo de desenvolvimento do adolescente é atravessado por tudo isto. Como adultos e comunidade, precisamos estar atentos e cautelosos a estes atravessamentos”, alerta a psicóloga.

Relação saudável com a internet

Embora muitas pessoas reconheçam que passam muito tempo conectadas, nem sempre diminuir o uso das telas é fácil. Isso ocorre porque, frequentemente, vida profissional, social e familiar acontecem simultaneamente em um único dispositivo.

Seja para resolver problemas relacionados ao trabalho, se comunicar com um parente distante ou até mesmo para o auxílio nos estudos, o celular se tornou um meio para realização dessas demandas. No entanto, manter o foco no que é essencial pode ser desafiador.

“Eu não queria ser tão dependente. Tipo, tudo que eu vou fazer tem que ter o celular ou um vídeo no TikTok. Eu queria mudar isso, porque eu sei que não é só um aplicativo de dancinha pra se distrair. No fim das contas, se torna algo desgastante”, declara Noemí. 

Nesse contexto, a psicóloga aponta que o auxílio dos pais é fundamental para a construção de uma relação sadia com as redes sociais. 

“Muitas famílias podem viver o dilema de liberar ou restringir de vez. E nenhuma destas opções é simples. Por esta razão, eu indico o monitoramento pautado em diálogos. Também não adianta incentivar um uso mais ponderado se a família não abre espaço para outras formas de socialização e lazer”, orienta. 

Proteção digital: um desafio coletivo

Diante desse cenário de hiperconexão, refletir sobre a proteção no ambiente digital torna-se indispensável. Em março, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi atualizado com a chamada ECA Digital, que busca ampliar a proteção diante do avanço das tecnologias.

Entre as medidas, estão a verificação de idade para acesso a produtos ou serviços proibidos por lei, além da implementação de ferramentas de supervisão parental e de moderação de conteúdo. Também prevê a criação de mecanismos de reporte imediato às autoridades em casos de materiais relacionados à exploração, abuso ou aliciamento.

Na avaliação da psicóloga, medidas como essas podem auxiliar na proteção dos jovens. “A percepção de risco é mais frágil na adolescência. Então é necessário que a família e a comunidade estejam sensíveis e atentas para que o adolescente não fique exposto a situações como redes de pedofilia e exploração sexual”.

Contudo, a especialista ressalta que o uso dessas medidas de forma impositiva pode gerar o efeito contrário. “O adolescente já dispõe de maior autonomia e pode buscar formas de burlar essas restrições. Por isso, o monitoramento precisa vir acompanhado de diálogo responsável e respeitoso”, conclui.

Por fim, entende-se que a proteção no ambiente digital exige um compromisso coletivo entre família, sociedade e Estado. Mais do que restringir o acesso, é fundamental orientar e construir, junto aos jovens, uma relação consciente e segura com as tecnologias.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo